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Entrevista: Weaver Lima (Seres Urbanos)

03/05/2015

Seres Urbanos em 1992
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Nos anos 1990, um grupo de jovens artistas cearenses tomou de assalto o underground local e deixou para sempre a sua marca na cultura independente brasileira. O bando, que atendia pelo nome de Seres Urbanos, organizou festivais e exposições, criou capas de fitas demo, flyers e cartazes de show, escreveu coluna para jornal e, acima de tudo, publicou muitos zines de quadrinhos. Essa rica produção, porém, esteve durante muitos anos acessível apenas aos poucos colecionadores que guardaram e cuidaram dessas raridades.
Seres Urbanos – Antologia do Quadrinho Underground Cearense (já à venda na loja da Ugra) chega para corrigir este erro. Com 100 páginas e produção gráfica primorosa, o livro traz uma seleção das HQs e experimentos gráficos realizados por Weaver, Marcílio, Elvis, Lupin, Kaos, Galba e Mychel para as publicações dos Seres.
Nosso amigo Law Tissot, que acompanha o trabalho do grupo desde o início, conduziu este rápido bate-papo com Weaver Lima.
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Seres Urbanos, o livroLaw Tissot – Vocês sempre provocaram todo mundo com os quadrinhos e as colagens e tudo mais, desde o início.
Weaver Lima – Pois é (olhando pro lado). Não sei o que dizer sobre isso (risos).
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LT – Seres Urbanos é um nome que tem muita força poética, muito antes de nós escutarmos falar em Banksy e toda a febre de street art. Mas que tipo de seres vocês quiseram ser, afinal?
WL – Naquela época, final dos 80s, Fortaleza era uma cidade que começava a crescer verticalmente cada vez mais rapidamente, e que também se espalhava de maneira desordenada, se tornando o monstro que é toda cidade grande que avança sem planejamento urbano. Os habitantes da  cidade, no entanto, ainda romantizavam a cidade como se ela fosse uma pequena vila de pescadores, ou que toda a cidade se resumisse a região da beira-mar, com suas praias “encantadoras” pra turista ver… Nós saímos da periferia da cidade e convivíamos com uma outra cidade, bem distante daquela dos cartões postais. Seres Urbanos era um nome que tinha a ver com isso. Tinha a ver tbm com o tipo de música que escutávamos (punk rock). Queríamos deixar claro que não éramos mais os pacatos moradores de uma pequena vila. Tem um fato que ilustra bem isso. Quando a gente lançou o nosso primeiro zine em 1991, uma jornalista nos entrevistou assim “mas por que vcs desenham tantos prédios?” e intitulou a matéria como “Um zine com cara de cidade grande” (risos). Algumas pessoas realmente não observavam que a cidade estava mudando.
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LT – Um coletivo de zineiros é meio banda de rock, certo? Haviam os ensaios e os lançamentos. Os zines eram como demo-tapes?
WL – É, tinha isso de ser um grupo mesmo. Nossos “ensaios” eram aos sábados. A gente se encontrava pra ver o que cada um tinha produzido durante a semana e nesses encontros nasciam muitas outras ideias estimuladas por algo que alguém do grupo falava ali na hora. Os zines iam sendo produzidos dessa maneira mais espontânea. Depois tivemos uma sede, que chamávamos de “Estação Gráfica Seres Urbanos”. Nessa sala além dos nossos zines passamos a prestar serviços gráficos pras bandas locais, fazendo cartazes de shows, e na sequência fizemos produções de exposições de zines, festinhas, shows de rock etc. Naquela época, a gente tinha como meta conseguir viver trabalhando unicamente com isso.
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Seres Urbanos – 2015
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LT – Os fanzines sempre tiveram uma repercussão bastante intensa ai em Fortaleza, cidade solar (sei bem o quanto é quente desde as cinco da manhã!), como foi que essa história do faça você mesmo se desenvolveu neste território?
WL – A gente tem conhecimento de uns zines punks que rolavam pela cidade, antes do Seres Urbanos, ainda nos 80’s. De certa maneira, sempre teve gente fazendo zine de todos os tipos por aqui: punk, poesia, HQ, rock, cena eletrônica, cinema etc. E além dos zines era comum a gente ver também muita coisa de literatura de cordel, em bancas de revistas e nas feirinhas. De certa maneira, isso de publicação independente sempre foi algo muito presente.
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Seres Urbanos – RemakeLT – O quanto dos Seres Urbanos você carregou para seus trabalhos de artes posteriores?
WL – “Eu não vivia no meio de artistas, e sim de cartunistas …o fato de viver com artistas, de se falar com artistas me desagradava muito.” (Duchamp)
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LT – Lidar com todo esse patrimônio material e imaterial de organizar esta edição deve ter sido uma avalanche de emoções, e memórias… Vocês estão bem depois que o livro foi lançado?
WL – Na verdade, fomos fazendo sem pensar muito no assunto pra não correr o risco de pensar em desistir (risos). Ah, foi legal fazer o livro, rever o que produzimos juntos, selecionar o material… O lançamento do livro aqui em Fortaleza foi bem divertido, relembramos algumas histórias de bastidores e demos umas boas risadas. Personalidades aqui da cidade têm se declarado fãs do grupo, pessoas que a gente não tinha nem noção que lia nossos zines aparecerem dizendo que ainda os possuem, que os guardam até hoje. Tem sido bem bacana tudo isso.
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LT – Quando eu abro o Sedex e vejo o tamanho do livro e todo o seu significado, eu começo a acreditar que todos aqueles xerox de fato valeram a pena. Vocês ainda são uma inspiração.
WL – Valeu aí, Law. É legal ler isso de alguém que nos inspira. 10% inspiração e 90% … (risos)

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