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Entrevista: Tomas Larsson (Horrophobic Zine)

22/01/2013

Tomas Larsson

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Soube da existência do fanzine sueco Horrophobic no final de 2012, quando o Petter Baiestorf postou uma mensagem no Facebook elogiando a publicação e dizendo que Tomas Larsson, seu editor, estava à procura de distribuidores no Brasil.

Em meados dos anos 90, Mr. Baiestorf publicava o Arghhh!, um dos zines mais legais daqueles tempos, verdadeira escola sobre o submundo cinematográfico mundial e sobre as mais diversas bizarrices concebíveis. Ou seja, o cara sabe distinguir um bom fanzine e, vindo dele, um elogio é praticamente uma “carta de recomendação”. Pensando nisso, imediatamente entrei em contato com Tomas e me dispus a distribuir o Horrophobic em nossa terrinha.

Pouco tempo depois os zines já estavam em minhas mãos (os interessados podem adquirí-lo aqui) e foi tão divertido lê-los que resolvi conhecer um pouco mais sobre seu editor. No bate-papo a seguir, Tomas fala um pouco sobre sua relação com o gênero horror, fanzines, tabus e até mesmo sobre sua admiração pelo filme Uma Babá Quase Perfeita. Boa leitura!
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Ugra Press – Olá, Tomas! Por favor apresente-se aos nossos leitores. Quantos anos você tem? O que faz da vida?

Tomas Larsson – Olá para todos. Meu nome é Tomas, nasci na Suécia em 1964 e tenho vivido aqui desde então. Se eu pudesse (e quem sabe…), eu gostaria de me mudar para um país mais quente porque eu odeio o inverno com neve e toda aquela merda. Neste momento eu estou trabalhando em uma fábrica como operador de processo, mas eles decidiram fechar a fábrica no final de fevereiro, então é hora de seguir em frente.
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UP – O que chamou sua atenção para o gênero horror no início? Você consegue se lembrar do primeiro filme que assistiu e suas impressões sobre ele?

TL – Não estou certo de conseguir fazer uma linha do tempo perfeita aqui, mas tudo começou mais ou menos assim:

Quando eu era jovem eu freqüentava um local chamado “Centro de Recreção da Juventude”. Um lugar onde você podia encontrar outras pessoas depois da escola para conversar, jogar bilhar, tênis de mesa e coisas do tipo. Uma vez por semana eles exibiam um filme, e vez ou outra era um filme de horror. Um dos filmes que eu ainda lembro daquele tempo foi Jaws, do Steven Spielberg, e sim, eu me borrava vendo esse filme (ainda hoje eu não tomo banho de mar, haha). Um pouco mais tarde, as fitas VHS começaram a aparecer nas lojas suecas, e eu tinha um amigo (não um grande amigo, apenas alguém que eu conhecia um pouco) que tinha um gravador de vídeo cassete, então nós começamos a alugar algumas fitas – não necessariamente horror, mas era horror o que mais me impressionava e fascinava. O primeiro grande avanço foi quando eu comprei meu próprio aparelho, então eu podia alugar os filmes que eu quisesse e assistir com meus melhores amigos. Toda semana nós alugávamos filmes de todos os gêneros, era fascinante. Alguns filmes que assisti neste período são Texas Chainsaw Massacre, Terror, Frightmare e Creature from Black Lake.

Certo dia eu assisti Zombie Flesh Eaters do Lucio Fulci e fui nocauteado por todo o gore e os zumbis do filme. Depois daquele dia eu me tornei um zombie freak, e ainda hoje eu sou…
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UP – Porque você decidiu iniciar seu próprio fanzine? Qual foi sua inspiração?

TL – Tudo começou no final de 2011, quando decidi por minha guitarra para descansar. Eu queria fazer algo diferente, então porque não começar um blog sobre filmes de horror? Eu comecei a assistir filmes baseados em temas. Eu escolhia 3 filmes de um mesmo tema para resenhar e os primeiros foram “filmes splatter alemães” e em seguida “crocodilos assassinos”, como você pode ver no meu blog. Até esse momento eu escrevia em sueco porque meu inglês não é o melhor, mas eu não estava satisfeito com o blog apenas. Sou um homem velho e estou acostumado a segurar algo em minhas mãos enquanto leio, então comecei a pensar em fazer um fanzine de papel. Criei um perfil no Facebook e comecei a investigar as possibilidades de entrevista com pessoas do meio musical. Um novo mundo se abriu para mim, foi fantástico fazer contato com todos os amigáveis fãs, diretores e atores de horror ao redor do globo. Um sonho meu começou a crescer – sim, eu posso fazer um zine! – e logo eu já tinha em mãos as duas primeiras entrevistas: Peter Ryberg Larsen (colecionador de filmes) e Marc Rohnstock (diretor alemão). Eu comecei a escrever em inglês porque eu pensei que seria melhor, considerando que a maioria dos meus amigos no Facebook não é da Suécia.

Posso dizer que eu renasci através do Horrophobic. Quando eu formei minha própria família nos anos 90, eu praticamente parei de colecionar livros, filmes e revistas de horror, mas eu estou novamente faminto agora! Se você olhar em volta, há tantos diretores independentes fazendo seus próprios filmes às custas de muita paixão, e isso é definitivamente parte da minha inspiração. Eu realmente amo filmes independentes e tudo o que está rolando em cada canto do mundo nesse sentido. Às vezes é duro manter um fanzine, são necessárias muitas horas de trabalho árduo para completar uma nova edição. O que me mantém ativo não é apenas minha paixão por filmes. O que realmente me inspira a continuar é todo o retorno fantástico que eu tenho sobre o fanzine, todos aqueles que respondem minhas entrevistas, os screeners que eu recebo e logicamente isso aqui: minha primeira entrevista. Editar um fanzine é um sentimento muito positivo e uma experiência fantástica!

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Flesh and Blood
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UP – Você é também um colecionador de fanzines? Você poderia nos falar um pouco sobre seus fanzines favoritos de ontem e de hoje?

TL – Eu era algo como um colecionador nos anos 80, muito antes da internet atingir o mundo com seu poder. Não era fácil encontrar revistas. As únicas que encontrávamos na Suécia eram a Fangoria e a Gorezone, mas elas eram muito caras e não muito fáceis de serem lidas para mim. Eu iniciei uma assinatura e era ótimo sempre que chegava uma nova edição na caixa postal para eu ler ou ao menos olhar. Pouco depois eu cancelei a assinatura da Fangoria. Mais tarde, eu descobri uma revista inglesa chamada Dark Side Magazine que realmente amei e assinei por um tempo. Por intermédio dessa revista eu encontrei uma loja fantástica na Inglaterra que vendia uma grande variedade de itens ligados ao horror, incluindo revistas como Flesh & Blood, Dark Terrors, Uncut, Eyeball e Delirium. Nenhuma delas era realmente um fanzine, mas eu amava todas. Uncut ainda hoje é editada e isso é fantástico. Às vezes eu compro um exemplar. Não é possível comprar tudo, é uma questão de dinheiro. Eu procuro fazer novas aquisições todos os meses, mas normalmente acabam sendo novos DVDs.

Se eu vejo um fanzine hoje em dia eu o compro, mas eles são difíceis de se encontrar. Recentemente eu encontrei um fanzine chamado Crimson Screens, minha ex-namorada deixou-o em minha caixa postal alguns dias atrás. Outra publicação que conheci por esses tempos é um fanzine dinamarquês fantástico editado pelo Peter Ryberg Larsen (sim, o cara que entrevistei na Horrophobic #1). Ele faz um zine chamado Sick In The Head (ótimo título, haha). Rigor Mortis é um fanzine norte-americano sobre zumbis que descobri recentemente. Blood Fest INC., Liquid Cheese e Lunchmeat são outros. Há também um fanzine da Suécia chamado Gory-Glory, mas ele é escrito em sueco. É uma excelente publicação, tenho todos eles. Fanzines são ótimos, eu os amo.

Todos que lerem esta entrevista e que façam seus próprios fanzines, por favor entrem em contato!

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UP – No fanzine Horrophobic você faz uma ampla cobertura dos filmes absurdamente sangrentos que tanto amamos. Mas eu também percebo você refletindo um pouco sobre o seu gosto por tanta violência gráfica e até mesmo questionando isso. E então, você chegou a alguma conclusão? De onde vem esse desejo de assistir violência extrema e o que é tão fascinante sobre isso?

TL – Uma questão muito interessante para responder. Meu sentimento e meu julgamento mudaram um pouco em função do Horrophobic e das novas portas que se abriram pelo Facebook. Eu realmente curto o antigo estilo carregado de sangue e gore como em Zombie Flesh Eaters, The Beyond e New York Ripper, clássicos do Fulci. Eu sempre tive interesse em conhecer filmes de países “excêntricos”, como Zombie Infection (Alex Wesley, da Rússia) e, recentemente, os filmes de Petter Baiestorf, do seu país, Brasil. Entrevistar estes diretores e escrever sobre pérolas desconhecidas de todo o mundo são partes importantes da Horrophobic.

Respondendo à questão sobre minha fascinação em relação à violência crua e de certa forma “proibida”, como por exemplo assassinato de crianças e estupro: eu puxei os limites do que eu me permito assistir nas telas e comecei a apreciar os extremos. Eu estou agora mais curioso em busca de novos limites para a violência nos filmes. Quão longe podemos ir? O que podemos matar? Eu sinto um prazer bizarro assistindo violência extrema nas telas. Mas também gostaria de destacar que eu tenho uma linha muito clara entre realidade e ficção. Eu odeio violência na vida real.
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UP – Em se tratando de filmes gore / explícitos, há algum limite para você? Existe algum tópico tabu ou algo que você se recuse a assistir?

TL – Oohhh, eu acabei respondendo essa pergunta na questão anterior, mas posso acrescentar que eu nunca vejo filmes snuff na internet como assassinatos verdadeiros, tortura e acidentes, mas quando se trata de ficção eu não tenho tabu ou limite algum (até agora). Eu tenho curiosidade de ver quão doentio um filme pode ser.
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UP – Eu amei o Movie Collector Special no Horrophobic #1, onde você entrevistou o colecionador e editor dinamarquês Peter Ryberg Larsen, e espero que você retorne a este tópico nas próximas edições. De qualquer maneira, ler esta matéria me deixou curioso: qual é o item mais precioso da sua coleção e porquê?

Fangoria #8TL – Eu vou anotar seu pedido e trazer o Collector Special de volta ao Horrophobic algum dia. Eu sou fascinado por pessoas que colecionam coisas, não necessariamente artigos relacionados ao horror. O que você coleciona não importa, mas logicamente no meu fanzine eu tratarei apenas de colecionadores ligados ao horror.

Eu sou um colecionador, mas não necessariamente de coisas de alto valor financeiro. Meu dinheiro é limitado demais para comprar colecionáveis muito caros. Eu compro muitos filmes e alguns são um pouco caros, e recentemente eu comecei a comprar antigas fitas VHS de locadoras suecas. Eu tenho muito carinho pelos livros de horror que eu comprei ao longo dos anos. Não é fácil escolher um item específico, toda minha coleção é muito preciosa para mim. Algo que eu devo amar um pouquinho mais deve ser a edição #8 da Fangoria porque ela tem um zumbi do Zombie Flesh Eaters na capa. Sim, eu amo Lucio Fulci, então devo dizer que o livro Beyond Terror é outro item que eu levarei para meu caixão quando eu morrer. Entre os itens mais recentes, devo dizer que todos os DVDs autografados são muito valiosos. Eu pareço uma criança quando abro um pacote com um filme que recebo de algum diretor, isso significa muito para mim.

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Tomas Larsson

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UP – O que está acontecendo no mercado de filmes independentes suecos atualmente? Algum novo filme ou diretor que devamos ficar atentos?

TL – A cena independente da Suécia sempre foi low profile, com poucos filmes circulando. Eu comecei recentemente a investigar o que está rolando por aqui e há pouco recebi uma cópia de um filme chamado Blodspår, do Jon Martin, um slasher de baixo orçamento. Daniel Lehmussaari é outro diretor que está na ativa há algum tempo e fez alguns filmes (The House of Orphans, The Grief). Ele dirigiu recentemente um novo filme de zumbis chamado Svart Död que será lançado em breve. Devo mencionar também Die Zombiejäger, um clássico cult sobre zumbis no estilo da Troma, indispensável para todos fãs de cinema independente e, pelo que eu saiba, um primeiro filme de zumbis produzido na Suécia. Eu fiz um artigo em duas partes sobre os bastidores deste filme. A primeira parte foi publicada no Horrophobic #2 e a segunda estará na próxima edição. Confiram!

Alguns filmes interessantes que estão sendo produzidos neste momento e que eu gostaria de mencionar são Den Gamle Och Monstret  e Mara . Certamente eu escreverei mais sobre os filmes suecos de horror nas próximas edições da Horrophobic. Eu sou da Suécia, afinal de contas.
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UP – Conte-nos sobre seu lado mais suave. Qual foi o último filme que lhe fez chorar?

TL – Amei essa questão, Douglas, muito importante. Eu definitivamente tenho um lado suave e acredito firmemente em “tentar ser uma boa pessoa”. Às vezes na vida você tem que ser egoísta para sobreviver, mas essa não deveria ser sua principal característica ou crença. Às vezes você encara problemas emocionais profundos e fica mentalmente exausto. Não é fácil ser uma boa pessoa nessas condições, mas se você puder falar sobre isso e tentar explicar para todos o que está acontecendo, eles poderão entender a situação.

Sim, às vezes eu choro. Com uma certa freqüência, para ser franco. Não consigo lembrar o último filme que me fez chorar, mas quando vejo na TV o sofrimento de pessoas ao redor do planeta eu choro. Especialmente quando vejo crianças na miséria – isso me toca muito. Toda criança nasce igual, mas em diferentes circunstâncias para a vida. É uma questão de ser sortudo, mas as coisas não deveriam ser assim. Eu também acabo deixando escapar algumas lágrimas quando eu vejo alguém ganhando uma medalha de ouro nas Olimpíadas, de pé no podium, chorando enquanto segura sua medalha ao som do hino nacional. É uma estrada longa e difícil até chegar lá, e finalmente você chegou… fantástico. Se você tiver a oportunidade de ouvir o discurso final de Robin William como a babá no filme Mrs. Doubtfire, de Chris Columbus (n. do e. – no Brasil, “Uma Babá Quase Perfeita”), você deveria reservar um tempo para fazer isso. Muito tocante e reflexivo. Permita-se ser emotivo e derrubar algumas lágrimas, não há vergonha alguma nisso.

Eu não consigo lembrar de alguma vez já ter chorado assistindo a um filme de horror.
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UP – Muito obrigado por sua atenção, Tomas. Alguma consideração final?

TL – O prazer foi meu. Muito obrigado por essa entrevista e a todos que a leram. Para todos os leitores eu gostaria de dizer: tentem fazer seus próprios fanzines, é duro mas também muito divertido. Enxerguem-nos como seus diários de filmes, eu meio que faço isso. E mais importante de tudo, sejam legais com todos e deixem a violência nas telas. Vejo vocês por aí.
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Tomas Larsson

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