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Henrique Magalhães

28/04/2011

Entrevista exclusiva com um dos maiores nomes do fanzinato nacional.

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Por: Douglas Utescher (douglas_utescher@yahoo.com.br)

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Qualquer pessoa que se interesse por fanzines no Brasil se depara, em algum momento, com o nome Henrique Magalhães. Pioneiro no estudo acadêmico desta mídia marginal, Magalhães escreveu 4 livros sobre o tema: O Que é Fanzine? (1993), O Rebuliço Apaixonante dos Fanzines (2003), A Nova Onda dos Fanzines (2004) e A Mutação Radical dos Fanzines (2005). Em 1995, criou a editora Marca de Fantasia, um dos mais interessantes projetos editoriais independentes brasileiros, pela qual publica preciosidades dos quadrinhos alternativos e textos acadêmicos sobre HQ e cultura pop. É também professor no curso de Comunicação Social da UFPB.
Às vésperas do lançamento de uma nova edição do fanzine Top! Top! – longeva empreitada de Henrique Magalhães dedicada à análise e divulgação dos quadrinhos brasileiros – a Ugra foi bater um papo com este atencioso cidadão pessoense. Com a palavra, o Mestre!

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A personagem Maria, mais conhecida cria de Henrique para as HQs.

Como foi seu primeiro contato com o mundo dos fanzines? O que mais lhe chamou atenção neles?

Conheci os fanzines no início da década de 1980, por meio de contatos por carta com autores de quadrinhos de outros estados. Nessa época eu já editava minhas revistas, com a personagem “Maria”, cujas tiras saíam nos jornais paraibanos. Os fanzines, pra mim, significaram uma renovação para as revistas alternativas, pois além de publicar os trabalhos artísticos, traziam informações textuais e reflexões sobre a arte.

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Você foi pioneiro no estudo acadêmico dos fanzines no Brasil. Hoje há uma abundância de monografias, TCCs e teses sobre o assunto, e aparentemente nas referências bibliográficas de todos eles constam livros como O Rebuliço Apaixonante dos Fanzines, O que é Fanzine e outros de sua autoria. Como foi, na época, ter começado uma pesquisa praticamente do zero? Qual foi o ponto de partida e qual foi caminho percorrido?

Parti do ponto que havia um fenômeno novo no campo editorial e que merecia ser objeto de estudo. Os fanzines tomavam fôlego no início dos anos 1980, particularmente com a popularização das fotocopiadoras. Por ser um estudo pioneiro, havia a dificuldade da falta absoluta de bibliografia sobre o tema, então tive que recorrer às referências de imprensa e comunicação alternativas. No entanto, os fanzines se apresentavam como uma mídia à parte, por estar ligados ao amadorismo e ao universo dos fãs. Os próprios editores dos fanzines foram muito importantes como referência nessa fase do estudo, relatando o desenvolvimento de sua produção. Para ter acesso mais efetivo com os fanzineiros, passei também a editar meus fanzines, que tiveram certa relevância para o contexto da pesquisa.

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Como o meio acadêmico recebeu esse trabalho na época?

Não tive nenhum obstáculo ao ser acolhido pelo professor Dr. Antônio Luiz Cagnin, na Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo. Na defesa de minha dissertação a banca fez um realce sobre este fato, de uma instituição tão séria como a USP ter aberto espaço para um tema tão à margem do circuito editorial. Abria-se, assim, um novo campo de estudo, que só fez crescer, juntamente com a produção de fanzines.

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Rebuliço Apaixonante dos Fanzines

No Rebuliço Apaixonante dos Fanzines, você aponta que “a matéria prima do fanzine é a informação, na forma de artigo, entrevista, notícia ou matéria jornalística”, diferenciando, desta forma, o fanzine da revista alternativa, onde “encontramos a produção artística propriamente dita”. Qual é o espaço para uma publicação deste tipo na era da internet? Seu conceito sobre os fanzines mudou de alguma forma ao longo dos anos, frente às novas possibilidades que foram surgindo?

Apesar de a internet comercial no Brasil já ter 16 anos, só agora começam a se estabilizar alguns padrões estéticos e de conteúdo, como os sites jornalísticos, os de entretenimento, os blogs e outras expressões próprias desse meio digital. Nesse percurso ocorreram algumas experimentações com relação à transposição dos fanzines para a internet, com forte migração nos primeiros anos e certo recuo na atualidade, com a ascensão do blog. Há ainda muitas indefinições conceituais. Para alguns, os blogs, por seu caráter amador, confidencial e interpessoal, vieram tomar o papel do fanzine. Para outros, há o fanzine eletrônico, ou ezine, que se trata de uma revista dedicada a uma expressão artística. A definição de fanzine permite essas liberdades no uso de sua nomenclatura, mas o certo é que os fanzines impressos não deixaram de existir, melhoraram em qualidade gráfica e em seu apuro editorial, embora haja uma sensível retração em sua produção.

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Graças a algumas iniciativas recentes, há quem aponte o início de uma retomada da produção fanzineira no Brasil. Você concorda?

É possível que o fanzine impresso nunca venha a acabar. O fascínio pelo fascículo, pela revista em sua materialidade vai além de seu conteúdo. É interessante considerar o prazer do folhear um fanzine, de vê-lo em sua concretude, de colecioná-lo. Acredito que as duas formas de produção e apresentação, a impressa e a digital, devem permanecer coexistindo, uma certamente influenciando a outra.

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Top! Top!, fanzine dedicado à análise e divulgação da HQ brasileira.

Na qualidade de pesquisador e educador, como você avalia o interesse dos seus alunos pelos fanzines?

Quando começo uma disciplina apreendo certo estranhamento dos alunos quando falo de fanzines. Isso num Curso de Comunicação Social, com habilitação em Jornalismo. Seria de se esperar que esse grupo de estudantes especializado já conhecesse de alguma forma a produção independente, não restringisse seu conhecimento aos meios de massa. Exceto alguns alunos, que já fizeram ou tiveram contato com fanzine, a maioria desconhece do que se trato. Contudo, quando passo a abordar esse tipo de publicação e programo a realização de fanzines na turma, vejo que o resultado é muito gratificante, com a descoberta pelos alunos de um novo mundo de pesquisa, reflexão e desenvolvimento gráfico.

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Recentemente sua editora, a Marca de Fantasia, tem lançado um número considerável de e-books, alguns pagos, outros gratuitos. No mercado musical, raras tentativas de cobrar por arquivos eletrônicos são bem sucedidas. E quanto aos livros? Existe um público disposto a pagar por versões virtuais deles?

Há pouca procura pelos livros digitais que edito, quando é cobrado um preço, mesmo que seja um valor simbólico de R$5,00. Por outro lado, os livros gratuitos são muito procurados. Creio que estamos num processo de educação para a valorização do arquivo digital e nos orgulhamos de sermos protagonistas nisso. Ao contrário dos arquivos de música e vídeo, e mesmo dos impressos, que são copiados livremente na internet, há um mercado crescente dos livros digitais no exterior e apostamos que o mesmo ocorrerá aqui. O país ainda não tem a popularização dos leitores digitais, os que existem são muito caros e quase inacessíveis. À medida que mais pessoas tenham o suporte para a leitura, haverá uma demanda por conteúdo, como está ocorrendo nos Estados Unidos. A prática de um preço justo estimulará os leitores a adquirir os arquivos. Hoje as editoras nacionais começaram a investir no livro digital, mas com o pretexto de valorizar o trabalho do autor cobram um escândalo por cada cópia, praticamente o valor de um livro impresso, sem, contudo, terem os gastos da produção convencional.

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Quais são os critérios para decidir se uma obra será publicada em papel ou em versão virtual?

A partir do início de 2010 estabeleci uma norma editorial para facilitar a produção. Os álbuns de quadrinhos continuariam a ser impressos; os livros teóricos passariam a ser eletrônicos. Há razões para isso. Os quadrinhos, no meu entendimento, ainda funcionam melhor no meio físico, que valoriza o desenho e o manuseio da publicação. Os livros acadêmicos podem ser digitais, pois seu público, de certo modo, já se habituou ao formato com o manuseio do computador. A edição eletrônica abre novas possibilidades de leitura e desenvolvimento gráfico, com a inclusão de cores, de links e outras ferramentas que esse meio oferece. Esse tipo de produção rompe, também, com uma limitação editorial da Marca de Fantasia, que tinha dificuldade para a edição de textos longos. Com os livros digitais as monografias, dissertações e teses poderão ser editadas na íntegra, preservando o conteúdo das pesquisas.

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Katita, criação de Anita Costa Prado

Dentre os álbuns de quadrinhos publicados pela Marca de Fantasia, chamam atenção títulos como Katita: tiras sem preconceito, Macambira e sua gente e Ber the bear, todos focando a homossexualidade, tanto a feminina quanto a masculina. É um tema raramente explorado nas HQs nacionais. Quando surge, geralmente é por uma perspectiva cômica, heterossexual e pautada em estereótipos. Existe um público gay de quadrinhos? Como foi a repercussão destes lançamentos no meio quadrinístico?

Não diria que há um público gay de quadrinhos, mas que há gays e lésbicas que gostam de quadrinhos e raramente encontram publicações onde possam estar representados com dignidade. Sempre trabalhei com o tema em meus quadrinhos; com a Marca de Fantasia tenho procurado dar ênfase a essa produção, tendo em vista o descaso das editoras comerciais para com a temática. O problema que encontro para não ampliar ainda mais a produção de quadrinhos com conteúdo homossexual é a falta de autores que trabalhem a questão. O meio das artes gráficas, e das histórias em quadrinhos, é ainda muito machista e não toca no assunto em sua produção, seja por falta de habilidade em lidar com o tema, seja por temer cair no estereótipo e no preconceito.

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Você acredita no potencial dos quadrinhos como expressão política? A abordagem unilateral e panfletária de uma ideia põe em xeque, de alguma forma, o valor artístico de uma obra?

Sim, acredito que qualquer arte que enverede para a panfletagem acaba perdendo seu poder crítico e transgressor, limitando-se aos cânones do que defende. É claro que há momentos em que esse tipo de produção tem um papel fundamental de questionamento do sistema, como ocorreu com a imprensa alternativa na década de 1970, mas a arte não pode e não deve se limitar a isso. Se a genialidade criativa de Henfil ou de Quino tivesse sucumbido ao panfletarismo, sua obra teria sido útil naquele momento, mas teria sucumbido ao tempo.

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Falando em quadrinhos, a quantas anda sua produção autoral? Atuar como editor lhe atrai mais, hoje em dia?

Perdi o fôlego para a produção autoral quando as tirinhas foram banidas dos jornais paraibanos. Por alguma coincidência ou conspiração, os jornais locais deixaram de publicar as tirinhas ao mesmo tempo, talvez por economia, ou mais provavelmente por não considerá-las mais como uma expressão artística relevante. Desde 1998, quando parei de publicar na imprensa diária, fiz muito poucas tiras, por absoluta falta de motivação. Há pouco voltei a produzir, para veiculação no sítio da editora Marca de Fantasia, mas sem o compromisso de periodicidade. Tenho enorme prazer em me dedicar à produção editorial, que exercito desde a adolescência. A edição de livros, revistas e álbuns abre muitas possibilidades criativas e me faz contribuir para a difusão da arte que aprecio.

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Quais são os planos da Marca de Fantasia para 2011?

Quero acelerar a edição dos textos originais que recebo e que vão se acumulando. Há muitos trabalhos importantes, que não podem morrer numa gaveta da academia. Também quero continuar o lançamento dos álbuns com o magnífico trabalho dos jovens autores, disseminando suas experimentações gráficas. E quero aperfeiçoar as edições digitais com a utilização de novos recursos. Muitos livros que editei no formato impresso deverão ganhar também sua versão digital.

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Agradecemos imensamente sua atenção, Henrique. O espaço está aberto para suas considerações finais.

O projeto da editora Marca de Fantasia foi criado para dar organicidade a minha produção editorial, não pretendia que chegasse à enormidade que chegou. A obra se tornou maior que o criador, graças, sobretudo, ao engajamento entusiasta dos autores, que contribuem generosamente com a cessão de suas obras. A eles, e aos leitores, em número cada vez maior, atribuo o bom desempenho de nosso projeto editorial.

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3 Comentários leave one →
  1. 02/05/2011 10:02

    Saudade de vc Henrique.
    Bj.
    Ci.

  2. 02/05/2011 19:01

    Sensacional! 🙂

  3. Robério Soares permalink
    04/05/2011 11:09

    Sempre Fui seu Fã e do seu(sua ) Personagem “MARIA”

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