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E por falar em fanzines… Parte 2: Xerox.

28/10/2010

Márcio Sno, Alberto Monteiro e Law Tissot contam detalhes da vida íntima com a máquina de xerox. Ódio, paixão e intriga nesse estranho caso de amor.
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Por Douglas Utescher (douglas_utescher@yahoo.com.br)

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Voltando à ativa depois de um período de involuntária hibernação, trazemos mais uma entrevista com 3 grandes nomes do fanzinato brasileiro: Márcio Sno, Alberto Monteiro e Law Tissot. O foco, desta vez, foi a relação do fanzineiro com a máquina de xerox. Amor? Ódio? Ambos? Leia e descubra.

Sobre os entrevistados:

> Márcio Sno foi uma figura onipresente nos fanzines dos anos 90. Apesar de ter editado alguns títulos diferentes, foi com seu eclético e bem humorado AAAH! zine que garantiu cadeirinha entre os imortais da fanedição. Também fez ilustrações para bandas e outros zines. Atualmente, está à frente do projeto de um documentário sobre os fanzines dos anos 90.

> Law Tissot é uma figura cuja apresentação deveria ser desnecessária aqui na Ugra – além de grande parceiro e incentivador, é fanzineiro de mão cheia e idealizador da sensacional Fanzinoteca Mutação.

>  Alberto Monteiro foi editor de um dos fanzines de quadrinhos mais geniais que esse país já viu, o Anti Usual, e esteve envolvido em outros tantos projetos próprios ou de amigos. Sem dúvidas foi um dos caras que melhor compreendeu o potencial da reprodução xerográfica como recurso visual.

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1 – A xerox, para seu(s) zine(s), era entendida como ferramenta estética ou como “mau necessário”? Porque?

Márcio Sno – Um pouco dos dois, na verdade. Mas mais necessária que tudo. Era a única forma que eu copiava meus fanzines para distribuir.

Law – As duas coisas. Bem no início do Mutação, em 1984, nós ficávamos angustiados com a falta de grana e os custos de gráficas. Até que caíram em nossas mãos os zines paulistas de quadrinhos e ideologia punk. Aos poucos a utilização do xerox foi melhor entendida, tamanhos de papel (possibilidades de dobras e formatos) e qualidade de cópia (toner liquido ou em pó, depois o xerox laser).

Alberto – Os dois. Porque eu comecei usando a xerox por não conhecer nenhum meio mais barato e prático. Com o tempo fui vendo que dá pra se usar a xerox a nosso favor, desde que a máquina esteja funcionando bem, claro. Fui vendo os resultados em outros zines e aprendendo com eles, na parte de grafismos e reprodução de fotos, por exemplo.

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2 – Das ocorrências características da impressão xerográfica (manchas, alto contraste, granulações, etc.) alguma lhe agradava ou irritava especialmente? Qual?

Márcio Sno – Gostava muito do contraste que rolava quando eu acertava no preenchimento da página (fundo). Ficava muito feliz quando isso acontecia. Fiquei muito feliz com o resultado da capa do Aaah! 4, que utilizei um papel pardo para dar um aspecto de sujo e deu muito certo! O que me irritava muito era quando eu preparava uma página bacana e quando copiava, o toner era ruim, ou cortava pedaço do texto e coisas do gênero. Era terrível quando eu exagerava no fundo escuro e a cópia saia esbranquiçada. Várias cópias do meu Aaah!! 1 saíram ruins. Mas, com o tempo, a gente vai acertando na copiadora, no copiador.

Law – Trabalhei muito tempo com copiadoras (xerográficas), isso ampliou meu conhecimento técnico, um domínio sobre as possibilidades do equipamento, redução e ampliação da imagem, meio tons reproduzidos de acordo com cores (ou originais), a limpeza de espelhos e demais suprimentos que otimizam uso da máquina e da cópia. De sua lista, o contraste e as granulações das grandes ampliações são fascinantes.

Alberto – O que me irritava mais eram aquelas manchas esfumaçadas, depois tinham aquelas linhas cortando tudo, e às vezes a máquina até amarrotava o papel – além de falta de toner, que são aquelas reproduções muito apagadas. Tudo isso era terrível. O que eu gostava era da forma chapada que ficavam as fotos caseiras, parecendo silk screen, o que às vezes não se conseguia de primeira, tinha que tirar xerox mais de uma vez pra se conseguir o resultado. E quando havia muito contraste as marcas da colagem sumiam, isso era legal, mas tinha que estar sempre correndo atrás de uns lugares com melhores máquinas e atendentes mais preparados. Dava tanto trabalho isso tudo, que até desanimava de fazer os zines.

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Capa do Aaah! #4, por Márcio Sno.

 

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3 – Além de copiar, você fazia algum outro uso da máquina (ex.: ampliações, reduções, distorções, etc.)? Quais?

Márcio Sno – Sim. Sempre usei erros de impressões e imagens distorcidas nos fundos. Usei mais reduções para poder encaixar os textos e economizar espaço, principalmente quando adotei o formato A5: eu fazia o fanzine no tamanho A4 e reduzia pela metade. Mas depois disso, o computador surgiu em minha vida e a redução era feita direto no micro.

Law – Sim, a máquina de Xerox, manipulada de perto, desvela muitos recursos e possibilidades. É uma questão mesmo de repetição do processo, das cópias e formatos e tipos de papéis.

Alberto – Ampliações e reduções às vezes eram necessárias para se conseguir o efeito desejado, como por exemplo a ampliação de retículas em fotos de jornal. Mas nunca foi possível fazer distorções, porque eu nunca tive acesso às máquinas e era difícil orientar os operadores para fazer isso.

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4 – Você costumava operar a máquina ou esse trabalho era feito por outra pessoa?

Márcio Sno – Somente algumas vezes que tive acesso direto. Mas foram pouquíssimas vezes. Nos locais onde trabalhei, subornava os office boys para conseguir umas cópias na faixa. Também “emprestava” os originais para alguém tirar no serviço. Mas geralmente eu fazia isso com os fanzines de bolso, Ejaculação Precoce e Lady Die!, que eram uma folha frente e verso.

Law – Os primeiros fanzines foram reproduzidos numa loja. Em seguida trabalhei numa durante uns anos. Isso garantiu muitas experiências, com certeza.

Alberto – Nunca operei. Gostaria, mas não foi possível, não tinha acesso.

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5 – Costumava dar alguma orientação ao operador? Qual?

Márcio Sno – Aos poucos, a gente passa a ser conhecido do operador da máquina de xerox. Eu sempre tirava as cópias em uma loja na Galeria do Rap, que fica ao lado da Galeria do Rock, em SP. Sempre falava para o cara caprichar, até cheguei ao ponto de prometer (e cumprir) de colocar o nome dele nos agradecimentos na edição seguinte. O segredo é NUNCA ser inimigo do operador, pois ele sempre vai arrumar uma forma de te sacanear. Por isso é importante ter o operador como um aliado, isso ajuda a garantir bons resultados!

Law – Nunca precisei dar muitas orientações, acredito que sei ser claro na hora de pedir as minhas cópias.

Alberto – Sim, pra não imprimir de cabeça pra baixo o verso da página, isso acontecia muito, e os operadores se irritavam bastante também com as exigências, eram muitas dificuldades.

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Página de Maria Cyberpunk, de Law Tissot.

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6 – Ao escolher uma copiadora, você levava em conta o preço da cópia ou a qualidade?

Márcio Sno – Não vou mentir que o preço era o norte. Mas a qualidade também contava. Com o tempo passei a ser mais exigente e calhou de eu conseguir aliar as duas coisas na loja que falei antes. Mas sempre fui pelo preço mesmo, pois o que importava mais para mim naquela época era distribuir o zine e preço menor era sinônimos de mais zines circulando.

Law – No princípio o preço era determinante. Depois criamos forma de reproduzir por demanda. Os fanzines foram superando muitas deficiências de reprodução, mas aos poucos criamos uma identidade e ideias para reproduzir com qualidade, com total domínio sobre o equipamento.

Alberto – Os dois, mas a qualidade era fundamental, gostava que meus zines ficassem bem feitos pra que fossem muito bem entendidos. E principalmente onde tivesse gente preparada pra atender bem, porque exigia muita paciência do operador.

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7 – Considerando a impressão em xerox, ao preparar os originais de um zine, você tomava algum cuidado especial? Qual?

Márcio Sno – Com o tempo, passei a perceber que os fundos davam um contraste legal. E passei a investir pesado nisso. Tanto que quando estava preparando a edição 5 do Aaah!! adquiri um álbum do HR Giger e utilizei imagens do artista suíço em todas as páginas da edição. A partir desse número, essa foi a maior preocupação (além do conteúdo, naturalmente). Tanto que o número seguinte, para mim, foi o que teve a melhor diagramação.

Law – Sim, procurávamos ser o mais limpo nas colagens, e só mostrar a “sujeira” que define a estética da idéia. As diagramações eram desenvolvidas para ter eficiência no formato planejado, e com uma qualidade de cópia razoável. Claro que, às vezes, dependendo da ocasião / circunstância, somos obrigados a reproduzir um zine com qualquer qualidade que encontramos pelo caminho.

Alberto – Sim, com a experiência adquirida, já preparamos tudo pensando no resultado das cópias. Um exemplo é o respeito às margens, acontece muito de cortar alguma coisa dos cantos, então o melhor é não usar a folha do original no máximo de seus limites físicos, isso pode dar muita dor de cabeça. Letras apagadas ou manchadas podem se tornar ilegíveis também, depois da impressão.

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8 – Esteticamente, quais eram suas referências para a produção do fanzine?

Márcio Sno – Nas primeiras edições, me baseava nos zines que eu recebia. Mas, com o passar do tempo, alguns fanzines me influenciaram muito, dava uma “inveja saudável”, pois eu pensava: “se meu zine ficar parecido com esses, eu fico contente”. E esses zines eram: O Cabrunco, de Adolfo Sá e Rafael Jr; Papakapika de Marcel Pauluk e Digão Duarte; Abrigo Nuclear de Edson Luís; Dr. Libério de Sylvio Ayala e Sociedade dos Mutilados do saudoso Joacy Jamys.

Law – Eu fiz o X-TRO nos anos 80, e foi a experiência que melhor traduziu meus desejos de produção de um zine. Meus desenhos e quadrinhos funcionavam com as informações coladas nas outras páginas. As capas funcionavam, o próprio título do zine. A produção de um zine tem que traduzir / apresentar os desejos do seu editor / coletivo. Isso é difícil, pois agrega valores simbólicos, filosóficos e estéticos.

Alberto – Principalmente os outros fanzines. Eu adorava as coisas que eu via, graficamente era meio trash, mas ainda assim tinham um estilo muito próprio e interessante. Depois tinham as revistas, principalmente as gringas (como i-D e The Face), que traziam um conceito de diagramação muito ousado e inovador.

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9 – Se pudesse ter optado por outro meio de impressão, teria optado?

Márcio Sno – Gostaria muito de ter publicado meu zine em off-set, com capa em papel de gramatura maior, capa em duas ou mais cores. Zine copiado em gráfica significava mais cópias circulando, e isso me fascinava. Mas, infelizmente, nunca tive dinheiro suficiente para isso.

Law – Sim, como optei na verdade. Já fiz zines em xilo, mimeógrafo, serigrafia, impresso em jato de tinta ou laser. Os xerox são um meio importante e sofisticado até, mas eles nunca seriam o único meio de se editar um zine honesto.

Alberto – Fiz um zine em impressão de jornal, o bom é que se tem muitas cópias, mas o valor não compensa quando se está sozinho na empreitada. Mas as xerox tinham um apelo visual mais interessante na minha opinião.

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Anti Usual

Página do Anti Usual #08 (1992) com ilustrações de Alberto Monteiro, Law Tissot e Weaver Lima

 

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8 Comentários leave one →
  1. 29/10/2010 08:01

    muito boas as perguntas Douglas!
    mais legais ainda as respostas!

  2. Rodrigo Ziner permalink
    29/10/2010 08:25

    Ekletik não foi o primeiro fanzine eclético? O que recebeu pedradas e mais pedradas por romper com o direcionamento, variar o conteúdo e editado por mulheres???? Que eu me lembre, o AAaahh era um fanzine de HQs do Márcio.

  3. Jakob permalink
    29/10/2010 08:55

    Bem-vindos de volta! Estamos preparando um especial sobre a North Turkey (vulga ‘Berlin’) caprichado pra Ugra.

  4. 29/10/2010 09:56

    Com certeza sou fã e também ja roubei muitas ideias dos fanzines dos dois!!!
    No fanzine AAAH nº4 saiu uma entrevista com a minha banda da época o Kaos Urbano. Éramos de uma gang punk o Ecatombe, e todos ficaram horrizzados pq tinha dito que Ecatombe é mau pega gruge e heavy metáu”!
    Picardias Púberes!
    Parabens ao Doulglas e Vida longa , pica dura e xota molhada pors zineir@s!

  5. cecilia fidelli permalink
    29/10/2010 12:39

    Saudade dos velhos tempos.
    Paz e Poesia.
    Ci.

    – Reviragita Poesia.

  6. 15/11/2010 11:53

    Rodrigo Ziner (ou Daisy Fiuza, como achar melhor), o fanzine AAAH!! era um fanzine que tinha de tudo: bandas, poesias, comentários de shows, demo-tapes, histórias em quadrinhos, scene reports, crônicas etc, etc… Apesar de eu ter sido ilustrador, eu NUNCA fiz HQ.
    E o meu fanzine sempre teve espaço para todos os tipos e gêneros. Homens, mulheres, gays, lésbicas, animais, e o que mais coubesse. Só não tinha espaço para discursos preconceituosos, homofóbicos, sexistas, machistas ou coisas estúpidas do gênero.
    Por conta disso tudo, tenho milhares de amigos homens, mulheres, gays e lésbicas pelo mundo afora! Quem me conhece, sabe disso tudo, quem não me conhece… deixa pra lá.

  7. 22/12/2010 17:50

    Muito boa entrevista! Excelentes entrevistados!

Trackbacks

  1. Ugra Buga #1 «

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