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O Plínio é pop!

12/08/2010

Leandro Márcio enfia o dedo na ferida e cutuca: “A verborragia do comunista Plínio seduziu patricinhas e playboys usuários do Twitter que não sabem o que é o Muro de Berlim.”

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Por: Leandro Márcio (le_marcio@yahoo.com.br)
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Ano de eleições. Debates, escândalos, ânimos acirrados. Esperanças de um lado, ceticismo do outro. Após oito anos de Lula, cujo governo favoreceu de fato as pessoas comuns, trava-se uma guerra midiática pelo poder entre duas correntes distintas, com projetos de país bastante diferenciados. Ao cidadão comum, a escolha: participar ou dar de ombros para tudo isso.

Acho importante tomar uma posição nessa arena de combate.

Mesmo não sendo militante de qualquer espécie, repudio a fórmula de que todos os políticos são iguais e blá blá blá. Oceanos de diferenças separam alguns candidatos e fechar voluntariamente os olhos a isso me parece um ato de burrice misturado com preguiça. Prefiro o olhar crítico, pesar as ações, as palavras, e então dar um veredicto. E nesse olhar crítico não se deixar envolver por querelas de partido algum, pois não os apoio e seria oportunista agora fazer isso. Todavia é justo apontar: percebo uma melhora na vida das pessoas comuns nesses últimos anos. Um passo em direção a uma vivência mais digna. Soma-se a isso uma presença maior do país em questões internacionais, fato de certa maneira inédito. E isso também é justo continuar. Ser mais claro do que isso é desnecessário.

Esse post comenta alguns pontos do primeiro debate televisivo entre os presidenciáveis, ocorrido na Rede Bandeirantes em 05/08/2010. Esperamos que o texto suscite um colóquio interessante. Outros textos sobre o tema surgirão oportunamente, sempre mantendo a tônica aqui apresentada. Boa leitura!.

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O debate entre os presidenciáveis na Rede Bandeirantes na última quinta-feira mostrou ao país um senhor octogenário de feições severas e fala envolvente. Enquanto os outros candidatos guiavam suas falas pela ponderação, o candidato do PSOL Plínio de Arruda Sampaio descarregou críticas a todos os demais, com a bravura de quem sabe que já perdeu mas insiste em atirar para todos os lados, na esperança última de inflingir alguns danos ao inimigo.

O resultado de tal estratégia: o nome Plínio de Arruda Sampaio chegou aos Top Trends mundial do Twitter durante o debate, permanecendo entre os dez primeiros por alguns dias; de 10.000 seguidores que o perfil do candidato tinha na rede social, o número magicamente subiu para 17.000 no dia seguinte; seu nome ficou em segundo lugar nas palavras mais buscadas no Yahoo!, atrás apenas de “Copa Libertadores”; jornais de todo o país concederam a Plínio a vitória no primeiro debate para a corrida presidencial; e graças a toda essa repercussão, a Globo oficialmente convidou o candidato comunista para participar do debate que ocorrerá dia 30 de setembro. Até então, o nome desse ilustre desconhecido não estava cotado para participar do debate no antro televisivo da direita brasileira.

A trajetória de Plínio de Arruda Sampaio é extensa e aqui não cabe discuti-la. O que nos interessa é o fenômeno pop por detrás  do candidato que, como em um passe de mágica, ganhou a simpatia de uma parcela considerável de brasileiros. Afinal, Plínio defendeu com todas as letras as invasões de terras como a única forma de efetuar a reforma agrária; desmantelou o mito da sustentabilidade ao dizer que capital e defesa da natureza são coisas incompatíveis; criticou duramente o comportamento de Poliana dos seus adversários, enfatizando que apenas coragem e confronto poderão mudar o país. Como um canditato com posições tão fortes para o senso comum conseguiu a proeza de sair do anonimato e ganhar tamanha simpatia, e justamente da parcela mais leitinho com pêra da sociedade?

A primeira resposta pode ser a necessidade do telespectador por espetáculo. Se os outros candidatos se dividiam em bocejantes posições conciliatórias (Marina), completa ausência de carisma (Serra) e constrangedor nervosismo (Dilma), Plínio conseguia dar alfinetadas com um senso de humor que faltava a todos os demais. Claramente que não estava lá para ser um palhaço televisivo: suas propostas  foram habilmente pensadas de acordo com a linha ideológica de seu partido. Daremos a César o que é de César. Mas seguramente a maior parte daqueles que, durante o debate, começaram a seguir no Twitter o octogenário comunista definitivamente não partilham de suas ideias. Todavia, gostaram de ver Dilma e Serra sendo alfinetados; deram risada da franqueza ranzinza do velhinho; e relembraram do Enéas que, enlouquecido frente às câmeras, gritava em prol da bomba atômica brasileira. Plínio não grita, não eleva o tom de voz, é mais elegante que o falecido candidato do Prona. Mas pelo menos nesse último debate, ofereceu aos eleitores entediados um motivo para manter a TV ligada na Bandeirantes. E esse motivo era o espetáculo.

A verborragia do comunista Plínio seduziu patricinhas e playboys usuários do Twitter que não sabem o que é o Muro de Berlim. Para eles, Plínio vale pela provocação. Pela sua loucura de dizer com franqueza. Incapazes de discernimento, os aclamadores momentâneos de Plínio podem ser os mesmos que votaram no Prona apenas por acharem o Enéas um lunático de barba engraçada. Mais uma vez, vence o circo em um país de pão mal repartido.

Não nos deixemos enganar: o Twitter não é a sociedade brasileira. É uma parte dela. E pelo que parece, essa parte congrega os elementos mais conservadores e, portanto, idiotas. Os mesmos que colocaram o candidato do PSOL no topo dos Top Trends são capazes de dizer que grevista não gosta de trabalhar.

A ausência de senso crítico não é apenas exercido em questões político-institucionais. Parece ser uma idiosincrassia quase brasileira, essa de aceitar a última opinião como a mais correta. Por exemplo a repercussão do filme Cidade de Deus, que mostra a polícia como um brucutu destruidor nas favelas cariocas: sucesso assombroso de público e crítica. Todo mundo achando que a polícia é filha da puta mesmo. Anos depois, o que temos? A febre de Tropa de Elite, mostrando que policiais sofrem uma pesada pressão no combate ao tráfico, que sua violência se justifica. Todo mundo, então, revê a opinião e acha que bandido é vagabundo e tem que morrer. Capitão Nascimento, caso se elegesse presidente, receberia muitos votos de ex-fãs de Zé Pequeno e sua turma.

O mundo gira e as pessoas acreditam em uma porção de coisas contraditórias. O fenômeno Plínio mostra isso: uma (considerável) parcela despolitizada da sociedade que não enxerga um palmo além do próprio nariz, que bate palmas para coisas que segundos atrás repudiava. Essa classe média tweetadora, súdita do mito do self made man, tá pouco se lixando para qualquer coisa que esteja além dos muros do seu condomínio fechado. Completamente inconsciente de suas atitudes, caminha em direção a coisa alguma, deixa-se levar pelo que é mais espetacular, mais barraqueiro, pelo que mais atende ao seu mesquinho senso do correto.  Torna-se cada vez mais aquilo que é, ou seja, uma massa, coisa manipulável e isenta de qualquer capacidade reflexiva.

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16 Comentários leave one →
  1. 12/08/2010 10:21

    Muito bom o post! Realmente esse cara esta sendo uma surpresa… Será um novo Lula daqui 4 ou 8 anos?

    • 12/08/2010 10:59

      Duvido, Der. As propostas do Plínio são propositalmente radicais e seguem a cartilha marxista. E em um certo ponto de vista, são ingênuas. Por exemplo, a ideia de limitar a propriedade de terra a 10 mil hectares e fazer uma reforma agrária na marra. Imaginemos que ele chegue ao poder e tente fazer isso. A resistência a essa medida seria tão forte que com certeza teríamos um golpe de estado movido por ruralistas e toda essa corja. Ou seja, não daria certo. Esse discurso é válido como bandeira de luta, mas questiono a real efetividade disso em certos momentos.

      De qualquer forma, a aceitação/repercussão em torno dele girou muito em torno do ambiente virtual. Há pessoas que realmente entenderam qual é a dele? Sim, entenderam. Mas a maioria eu tenho certeza que não. Lula tem apoio de massas e o Twitter não é nada perto do Brasil. E ainda bem que é assim.

    • Leo permalink
      12/08/2010 12:22

      Porra Der, o Plínio daqui a 8 anos? A medicina não está tão avançada! haha

  2. Rodrigo Choinski permalink
    12/08/2010 10:56

    Engraçado, o autor nem levanta a hipótese de que atingindo quem seja a franqueza e o fato de falar de questões fundamentais pode provocar mudanças, que o fato de pessoas estarem alienadas pode muito bem estar relacionado com outro fato: o de nunca ter tido contato com a realidade.

    Plínio é o contato com a realidade, subestima a capacidade de mudança daqueles que subitamente acompanharam o candidato, pois está cego pela alieanação da política eleitoral, só enxergando a realidade até 3 de outubro, enquanto ela continua, e os que são poucos (os poucos que conhecendo as idéias “subversivas” de Plínio agora continuarão com ele e tiveram uma mudança irreversível em sua visão de mundo, e isto abrange um tempo muito mais amplo.

    • 12/08/2010 13:54

      Não levanto a hipótese pois não acredito que as palavras de Plínio possam, como em um passe de mágica, “salvar” os tweetadores e colocá-los em contato com a “realidade”. Emprego aspas pois não há uma realidade objetiva e geral. Realidade é, no nível em que você emprega essa palavra, muito mais uma construção discursiva do que qualquer coisa.

      Se há tweeteros que refletiram criticamente a respeito das palavras dele é completamente irrelevante. Reitero: os entusiastas cibernéticos de Plínio seguiriam o Enéas se ele tivesse Twitter sem nenhum sentimento de contradição. Não basta, para se ter “uma mudança irreversível em sua visão de mundo”, seguir um perfil no Twitter.

      E não, não subestimo a capacidade de mudar das pessoas: subestimo a capacidade de mudança dos idiotizados do Twitter. Essa distinção fiz ao longo de todo o texto. Essa parcela (graças aos deuses ínfima) da população vê qualquer medida progressista como ameaça de comunismo e está pouco se fudendo com qualquer coisa. Eles não mudam porque mudanças não os interessam. E vê-los aplaudir o Plínio é o máximo dos absurdos, um sintoma claro de ausência de senso crítico – o que é o esperado, já que em geral não se aprende isso vivendo fechado em bolhas de bem-estar e fantasia.

  3. Leo permalink
    12/08/2010 12:19

    Ótimo texto.

    Facil de imaginar e comprovar que boa parte desse entusiasmo e vontade de espetáculo fazem os idiotas não terem dúvidas – como já citado – que Enéas e Plínio são oriundos do mesmo espectro político, sendo que na verdade eles estariam em extremos opostos.

    Mudando de assunto: Apesar de saber que o “caso Plínio” extrapola os limites do twitter, a maior parte dos assuntos de lá não. Não faço ideia dos números, mas provável que mais de 90% da população brasileira vive sem saber da existência. E ai temos essa realidade paralela, não raro acompanho comentários perplexos sobre “será que vivo em outro mundo, nenhum dos meus amigos vai votar na Dilma e ela está na frente das pesquisas” e coisas do tipo. Fato é que a resposta é positiva, os comentários vem de pessoas que realmente vivem em outro mundo: o mundo do paulistano médio, o mundo do condomínio. E isso não é, na prática, um elogio a candidata, é sim uma constatação de que o jovem classe média alta não faz a mínima idéia do país que vive.

  4. norben permalink
    12/08/2010 20:35

    “[…] os elementos mais conservadores e, portanto, idiotas.”

    Extremamente infeliz, conservadorismo não é sinônimo de imbecilidade, aliás que tipo de conervadorismo? neoconservadorismo? tradicionalismo? tradicionalismo radical/integral? É como dizer que todo candidato de esquerda é um utópico deslumbrado.

    Sobre o Plínio, ele é um achado arqueológico, pensei que os materialistas históricos tinha se extinguido nos anos 90…

    • 12/08/2010 21:48

      Se você contextualizar a oração destacada no seu comentário com o restante do texto, perceberá que a palavra “conservadorismo” é aplicada em seu contexto político, sem nenhuma relação com as derivações que você citou e que estão mais relacionadas com o perenialismo. Criticá-la isoladamente é o que não dá.

      Portanto, continuo achando que conservadores políticos são bem idiotas. O Índio da Costa é um bom exemplo da mediocridade risível do conservadorismo brasileiro.

      É interessante notar a permanência de ideias que parecem ultrapassadas, retornando com mais ou menos virulência. Quando algo novo entra no bonde da história, pode até descer, mas é bem provável que retorne em algum momento em novas formas e configurações. Vide o ressurgimento de coisas engraçadas como Wicca, Asatru e até mesmo reinvindicações de monarquismo por aqui, no calor dos trópicos.

  5. W.K permalink
    13/08/2010 01:27

    Leandro Márcio vc está de Parabéns pelo Ótimo Texto!

  6. 27/08/2010 11:56

    Então, acho que não deve-se praticar algo no qual não se acredita. Deve-se encontrar outro meio. Eu não acredito na política, nem na democracia brasileira, e acho que tudo isso que faz parte da política e da democracia já é, a muito tempo, o maior dos espetáculos. Começaram a escancarar uma falta de ética e respeito impressionante com toda uma nação, e ainda consegue fazer muitos acreditarem neles(os “políticos”), colocam “alternativas” entre os candidatos pra acreditarmos que temos opção (isso é o argumento mais clichcê do mundo, mas enfim..) e nego enche o peito pra falar: eu vou votar na marina, pelo meio ambiente! ou “eu vou votar no plínio, pela “revolução!”, “eu vou fazer diferente!” mano…. se vc vai VOTAR não tem revolução, não tem opção, é todo mundo igual. Não acredito que o plínio ganharia e faria as coisas pelas quais ele luta. E se realmente tentasse fazer, seria como o brother ali acima falou, iria rolar um golpe com certeza, e volatriamos pr amemsa ou pruma pior.
    A vitória dele demonstrar que o povo realmente quer uma mudança e das mais radicais, ia ser lindo! Mas um numero de estátistica apenas… enfim
    não acredito em eleição, não acho preguiça nem descaso votar nulo. Acho a coisa mais lúcida a se fazer, e outra, para decidir não votar em ninguém, pelo menos de minha parte, exigiu que eu pensasse muito, e tivesse muita coragem, e principalemnte, parasse de me iludir a mim mesma. Não foi um ato impensado, desleixado, muito pelo contrário! Fácil e preguiçoso, na minha opinião é ligar a televisão e deixar seu cerebro absorver feito uma esponja, por osmose, uma quantidade de promessas, de garantias, de informações absurdas, que tentam nos fisgar pela emoção e no final das contas não dão a mínima pra elas, informações aos montes que vão pro lixo da memória, que vamos esquecer. Quando os vermos fazendo tudo ao contrário, vamos engolir. QUem for pra rua reclamar vai apanhar e ser considerado vândalo, “babaquinha pagando de revolucionário, que não entende como as coisas funcionam”, até que nos forcem a entrar na dança.

    • 27/08/2010 18:44

      Concordo em partes com você, Areversão. Uma eleição, por si só, não consegue uma mudança revolucionária total, como você bem apontou. Eu já julguei que todos os partidos políticos eram iguais, mas há um bom tempo que vejo entre eles muitas diferenças -e diferenças que DE FATO se traduzem em atos, em acontecimentos. Por exemplo, a administração atual do Lula deu início a uma discussão sobre o monopólio dos meios de comunicação e houve avanços em relação a criminalização de torturadores e comparsas durante a ditadura. Duvido muito que um candidato como o Serra iria mexer em vespeiros tais como monopólios de telecom ou processos da ditadura. Isso fere interesses enormes de um lado e brios de velhos milicos de outro. Os que mais se revoltaram contra tais discussões foram, justamente, os membros dessa elite covarde que enfia novelas escrotas pelas mentes das pessoas há décadas e que se orgulha em dizer que durante a ditadura as coisas eram melhores do que hoje, que havia “ordem”. Ora, se essa corja se revolta assim, alegando perda de “liberdade de expressão”, é bom vermos com muita desconfiança.

      Então, boto muita fé em mudanças estruturais conquistadas lentamente, em alargar o campo democrático ao máximo, em melhorias reais da vida das pessoas. E sinto que alguns políticos estão dispostos a isso, enquanto outros não. A mudança revolucionária que você citou (e pelo que parece, apoia e acredita) para mim não está no horizonte imediato. Contudo, não sou daqueles cínicos que acreditam no “fim da história” ou na “morte da revolução”. Só acho que muitas vezes observamos o mundo com olhos típicos do século XIX, o que é de uma insensatez do tamanho do universo.

      Obrigado pelo comentário, trouxe um ponto de vista diferente para a discussão aqui. Visitarei seu blog com calma 😉

      Leandro

  7. Wu Ming permalink
    27/08/2010 12:04

    Achei o texto uma merda. Generalizar o Tweeter é tão babaca quanto qualquer generalização.
    Vc partiu do princípio de que Tweeter é coisa de playba… E faz isso na internet.
    É pra rir ou pra chorar?

    • 27/08/2010 17:55

      Concordo com você, seu comentário me fez mudar de ideia: Twitter não é coisa de playboy, é coisa de morador de rua. Você é morador de rua? Nunca vi morador de rua com um nome desses.

      Adorei seu poder de argumentação, Wu Ming. Volte sempre com suas ideias geniais.

  8. 27/08/2010 12:25

    Acho que só quando tivermos 80% de votos nulos no resultado de uma eleição, mesmo que isso não seja divulgado na mídia, e mesmo que segundo a constituição do nosso querido brasil, isso não seja suficiente para anular uma eleição, alguém lá vai ter que se tocar de que a palhaçada acabou.
    L.

  9. Bury permalink
    27/08/2010 19:07

    Wu Ming vestiu a carapuça facinho, hehehe…

  10. Felipe Abreu permalink
    13/01/2011 11:12

    quantos continuam seguindo o Plínio?

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