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Gengivas Negras

05/08/2010

Entrevista imperdível com uma das mais instigantes entidades musicais do underground brasileiro.
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Por: Mario Brandalise (mariobbaril@gmail.com). Fotos: Tita Blister

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Os Gengivas Negras ocupam os palcos brasileiros há treze anos, provocando tanto repulsa quanto admiração, firmes em sua proposta audio-visual monolítica, imperiosamente proibitiva à indiferença. Entrevistamos Theo que, ao lado de Carlos Morevi, é um dos tentáculos humanos dessa quimera multifacetada, influência inegável de uma geração de seus conterrâneos.

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Theo, explique-nos a fecundação, gestação e o “parto complicado” dos Gengivas Negras.

Não foi um parto assim tão complicado. Eu estava no Mecanotremata, banda pela qual o Morevi também havia passado, e tinha uma certa obsessão em usar drum machines com pedais de distorção, obtendo uma sonoridade que não tinha lugar no Mecano. Por outro lado, Morevi me apresentou o Merzbow e mais tarde, quando ambos estávamos na Belas Artes, nos deparamos com um trabalho sobre o Futurismo italiano. Foi bastante natural que ligássemos os pontos. Os Gengivas Negras culminaram de uma busca pela sonoridade extrema que é anterior ao nosso conhecimento de um embasamento teórico de tal estética. Na adolescência já buscávamos a abstração, o ruído, o que fosse mais rápido, o que fosse mais lento. Futurismo e DADA nos surgiram como bênçãos do passado.

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“Os Gengivas Negras não fazem ´música experimental´”; “Os Gengivas Negras não são uma banda. Uma banda tem instrumentos, métodos e objetivos que os Gengivas Negras simplesmente ignoram.” As afirmações mencionadas enfatizam um descontentamento. Estou certo?

“Música experimental” não quer dizer nada. Se alguma sonoridade não se encaixa em categorizações existentes, então vai para a prateleira de “experimental”. Ora, qualquer processo criativo ou científico passa por experimentação. Para se fazer um jingle é necessário um mínimo de experimentos; uma receita surge dos experimentos de um cozinheiro.

O descontentamento com determinadas condições por certo está no cerne da fundação do GN. O nome “Gengivas Negras” foi pensado por representar um sintoma, como consequência de alguma doença. Mas procuramos representar não somente o sintoma de um cenário musical doente, mas de uma sociedade doente. É flagrante a busca da civilização atual por obter e produzir entretenimento superficial, parece uma estafa mental coletiva em que ninguém está disposto a ceder um pouco mais de atenção a qualquer expressão que seja mais do que rasa. Bom, esse é o ingrediente de “descontentamento” no GN, mas também temos o contentamento, que é o fascínio com os sons, seja um som ambiente, um ruído artificial ou natural, a produção e manipulação de sons e todos os elementos que nos moldaram, os filmes, as HQs, os livros, as trilhas sonoras, etc.

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Defina a proposta audiovisual dos GN.

Desde o início o aspecto visual é parte fundamental no conceito do GN. Isso inclui o próprio código do traje que usamos, que tem valor igual à nossa sonoridade, e também a projeção de vídeo durante nossas apresentações. Infelizmente nem todo local de show tem condições para projeção, mas quando isso ocorre sentimos que temos uma apresentação mais completa. Já trabalhamos com VJs, temos também produção própria de vídeos e tivemos uma experiência muito interessante, que foi tocar no “Festival 8 pras 11” em Goiânia, onde tocamos em um cinema enquanto era projetado o filme “Tetsuo: The Iron Man”, de Shinya Tsukamoto, que é um filme muito importante para nós. O diálogo com imagem é indissociável de nosso trabalho, uma vez que começa bem antes de qualquer apresentação acompanhada de projeção. Quando perguntam que músicos mais nos inspiraram costumo dizer que, mais do que música, talvez tenhamos mais influência de filmes, fotografia, quadrinhos e livros. É bastante comum que comecemos a compor a partir da impressão que tivemos de uma imagem, uma foto, um filme, como uma busca por traduzir imagens em sons. O contrário também ocorre, quando a partir de um som imaginamos uma paisagem, um ambiente ou uma situação e isso se torna parte da composição, da ideia que vamos seguir.

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Os GN parecem possuir uma predileção por shows. Isso procede? Conte-nos em que diferem as suas sensações ao apresentar-se com os GN e com a sua outra banda, o Mecanotremata.

Sim, isso procede, porque é quando obtemos a expressão máxima de nossa sonoridade. O improviso e as respostas ao ambiente são componentes fundamentais em nosso trabalho e ficam muito mais evidentes em shows do que em gravações em estúdio. Quanto a shows com Mecanotremata ou GN, são abordagens bastante distintas. No GN há um certo rigor de conduta decorrente não só da sonoridade, mas até mesmo do traje, com o terno e a máscara. Com a máscara temos a movimentação e o campo visual bem limitados, e o equipamento que operamos também requer uma atenção mais cirúrgica. Mesmo nos momentos mais abstratos e ruidosos, no GN há uma certa fleuma. No Mecanotremata minha função é de percussionista, o que exige mais fisicamente. É uma condição mais primitiva do que no GN, mas isso tem de ser dosado com uma atenção extra a outros componentes da banda, afinal no GN somos um duo, no Mecano somos em 4. São disciplinas diferentes, com diferentes exigências, mas ambas induzem a um certo transe e é isso que me agrada, é a relação primitiva com o som. Creio ser esse o ponto em comum, para mim no GN ou no Mecano tenho uma relação ritualística com o som.

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Os GN apresentaram-se em uma miríade de lugares, de bares lendários (e em outros menos notáveis) em Curitiba, muitas vezes diante de um público quase nulo, até uma fábrica desativada na capital paulista para uma multidão. Apresentaram-se também em teatros, em um cinema, na abertura de um salão de artes para um público composto pela “respeitável sociedade curitibana” e também na Espanha, em um evento acadêmico. Anteriormente você nos disse que a resposta ao ambiente é componente fundamental no trabalho dos GN. Fale um pouco sobre esses shows e as reações dessa audiência tão variada.

Quando falei do ambiente estava me referindo à questão espacial, à arquitetura do lugar e em como o som se comporta ali. Isso envolve também o tipo de evento e de equipamento, porque temos essa relação de arrebatamento com o som, com as reverberações, os subgraves, em como o som domina o espaço e afeta as pessoas. Quanto ao público, para mim realmente é mais um motivo de curiosidade do que de preocupação. Ao expor o que produzimos é evidente que buscamos atingir alguém com isso, podem ser 5 pessoas ou 3.000, mas isso nunca vai nortear nossa produção. Esse é o único modo honesto de se fazer isso, creio que não subestimar o público é a melhor maneira de respeitá-lo. A consequência natural disso é obter diferentes respostas entre todos os públicos, por vezes até respostas semelhantes, negativas ou positivas, tanto em um público de headbangers quanto em um público de septuagenários da alta sociedade. Já vi reações entusiasmadas de jovens e idosos e por certo já houve jovens e idosos abandonando nossos shows. Em todos os eventos é possível extrair algo de verdadeiro, de relevante, é nisso que consiste a riqueza de apostar no comprometimento com o caminho que escolhemos, porque isso sempre vai atingir alguém. Para mim sempre vai ter valor tocar em um bar punk de Curitiba, em um laboratório midiático em Madri, em um cinema de Goiânia, em uma festa EBM no ABC paulista, porque em todos os lugares é possível obter uma reação absolutamente legítima.

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Você gostaria de falar sobre o (absurdo) preconceito de que o noise é apenas barulho desconexo, um gênero preguiçoso, um escapismo para falta de talento musical?

O noise corre o risco de ser um ato gratuito, mas esse risco não é maior do que qualquer outra forma de expressão. Uma composição perfeitamente estruturada, plena de nexo, correção e técnica também pode ser um artefato natimorto, auto-indulgente, ilegítimo e totalmente escapista. Não é a formação ou o discurso acadêmico que vai assegurar o valor de uma obra – esse pode ser o meio, mas jamais o fim. Ora, dizer que alguém faz noise por falta de talento musical é o mesmo que dizer que alguém faz música por falta de competência para o barulho. O fato é que não se pode pensar o noise como sendo uma área carente de disciplina e método, por mais caótico que seja o produto final. Mesmo de maneira inconsciente, quando alguém decide fazer barulho como opção estética, muito provavelmente passará por questões como selecionar a fonte do som, como trabalhar esse som, se haverá filtros, que sensação deve ser causada, além de diversas questões subjetivas, como o motivo pelo qual fará isso, que tipo de relação o sujeito terá com esse barulho, etc. O processo todo não é nem um pouco preguiçoso. Creio ser muito mais preguiçoso alguém aprender guitarra e simplesmente dedicar-se a tocar rock, sem buscar originalidade e legitimidade nisso. Esse é o ponto, a legitimidade, porque alguém pode decidir fazer composição erudita e o resultado disso ser algo completamente inócuo. Nem tudo que se faz em noise é maravilhoso e verdadeiro, mas em qual gênero é?

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Você organizou ao lado de um amigo algumas festas e colaborou para a realização das duas edições do Industrial Noise Fest CWB. Há de fato uma “cena” industrial/noise curitibana?

Eu e Paulo Ito organizamos uma meia dúzia de festas no gênero industrial/eletrônico extremo, era a MECH. Tivemos altos e baixos e na verdade me surpreende que tenha havido os pontos altos, pois queríamos fazer esses eventos independente do público, era simplesmente para propor essa ideia e nos divertir tocando o que gostávamos. Nossa proposta era promover um terrorismo sonoro e causar alguma impressão, seja qual fosse; se mais pessoas percebessem que era possível que isso fosse divertido, como nós achávamos, então ótimo. Por vezes parecia possível a formação ou a união de pessoas com o mesmo interesse, a construção de uma “cena”, mas o fato é que a esmagadora maioria do público boêmio compartilha um único interesse, que é o de ir onde tem mais gente, independente do evento. Essa é uma condição em que o tipo de música tem valor zero, o que por certo favorece os gêneros mais inofensivos e neutros. Sem esse componente de sociabilidade, essa política do “agradável”, dificilmente se leva muito adiante um evento que tem por premissa o conceito de “comprometa-se com a música ou vá embora”. Porque tínhamos por princípio nos divertir tocando o som que gostávamos, pesado e agressivo, sem a expectativa de sucesso, o que certamente é suicídio social nesse contexto. Creio que fomos bastante longe com essa ideia e me orgulho de tal suicídio, porque o cenário da vida noturna é bastante constrangedor. O DJ, que deveria ter um papel sociocultural independente e muitas vezes contundente e questionador, na maioria das vezes é um apêndice quase decorativo, uma juke box que está ali para não atrapalhar os clientes. O que se chama de “underground” geralmente é um ambiente bastante conservador, frívolo e estéril.

Quanto ao Industrial Noise Fest, que é um evento maior e com bandas além de DJs, creio ser prematuro dizer que o evento criou uma cena ou é resultado de uma. Só houve duas edições até aqui, com bons públicos, mas não sei se é possível diagnosticar uma cena sólida. Acho que isso dificilmente vai ocorrer, em Curitiba ou em qualquer lugar, pelas próprias características do que se chama “industrial”. Até os experts divergem sobre o termo, há uma miríade de subgêneros e variações. Essa falta de um código definidor do que é “industrial” é o principal motivo da dificuldade em se estabelecer uma cena industrial, mas criativamente é sua maior riqueza. Eu ficaria bastante preocupado se houvesse uma cena industrial estabelecida, porque isso contradiz o próprio conceito de industrial. Significaria o estabelecimento de códigos de conduta, de uma estética, regras, limites, ou seja, tudo que o industrial questiona desde o início, se considerarmos a idéia de industrial como as motivações iniciais da Industrial Records, do Throbbing Gristle, do discurso de William Burroughs e outras propostas feitas nos anos 70. Essa ideia de uma “cena” é pulverizada de vez se voltarmos ainda mais, até os Futuristas dos anos 10 e 20, porque o conceito artístico está intimamente ligado ao progresso da civilização, é um constante diálogo mutante com qualquer lugar ou época e isso torna a ideia de “cena” bastante supérflua e até mesmo ridícula.

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O Peter Hubner (jovem músico/noisicista da região de Curitiba) disse-me que para ele “os GN são uma ponte entre o Power Noise, o Power Electronics e o Noise, eles iniciaram uma síntese entre os gêneros mais ortodoxamente heterodoxos do industrial aqui em Curitiba.” Eu afirmo que os GN me influenciaram muito; os Índios Eletrônicos declaram que “contemplaram Gengivas Negras”. O que você tem a dizer sobre o fato inegável de que os GN são referência e estímulo a novos “artistas”? Como é colaborar com esses artistas?

Creio que essa síntese das variantes de noise seja consequência do fato de que não adotamos um único e rígido caminho para expressar o que queremos. Nosso comprometimento é com uma certa reverência pelo som em si, pelas impressões causadas por determinadas sonoridades. Na busca pela criação de determinadas ambiências nós utilizamos quaisquer ferramentas necessárias, por isso trafegamos livremente por diferentes métodos. Essa mesma postura talvez justifique uma reverberação de nosso trabalho entre públicos ou artistas teoricamente mais distantes de nosso espectro estético, entre pessoas que jamais ouviriam noise, industrial ou que sequer tenham especial apreço pela música eletrônica. O comprometimento com a própria linguagem é fundamental para que haja um reconhecimento entre artistas e públicos por vezes completamente distintos.

Sobre colaborações, tivemos parcerias importantes em shows com Marcelo Torrone (Wandula), Wallace Che (Ovos Presley/Mecanotremata), Índios Eletrônicos (a dupla atua também no Ruído/mm) e elaboramos uma parte integrante de uma faixa do Life Is a Lie. Essas colaborações são consequência do que foi dito anteriormente sobre o caminho que seguimos, com o objetivo de elaborar um universo sonoro sem menosprezar algum método ou gênero. Gosto sobretudo quando há um grande contraste entre nossos métodos e os métodos dos colaboradores, porque o resultado por certo vai ter características únicas e surpreendentes.

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Visões prospectivas a compartilhar? Algo a dizer aos interessados em seguir a mão esquerda da música?

Quando surgiu a internet eu achei que haveria um rompimento do público com o mainstream, afinal todos teriam acesso a tudo. Isso aconteceu parcialmente, mas por outro lado parece estar havendo um reforço cada vez maior de um nivelamento por baixo das mais diferentes formas de expressão. A internet é em grande parte mais uma ferramenta de mediocrização, como sempre foram o rádio e a TV. A esmagadora maioria das pessoas não tem qualquer interesse em pesquisar outros tipos de música ou filmes e usam a internet para obter precisamente mais do mesmo que se encontra na TV ou rádio, o que é lamentável. Para o futuro acredito que os grandes dinossauros do entretenimento continuarão investindo em produtos de massa e é nesse contexto que produções independentes ganham ainda mais importância. A guerrilha da época dos fanzines e fitas K7 deve continuar, agora em outros níveis, então é fundamental que se mantenha viva a curiosidade por novas sonoridades, por outras formas de expressão. Isso vale para quem consome e para quem produz algo.

Para quem está interessado em fazer música ou se expressar de qualquer outro modo, creio que único comprometimento deve ser consigo mesmo, sem fazer qualquer concessão apenas para agradar a um público ou para se moldar a alguma corrente. Essa não é uma postura egoísta, pelo contrário, é a postura mais generosa possível para colaborar de fato com um fluxo cultural que existe desde muito tempo antes de nós. Temos de respeitar esse fluxo, porque já há conglomerados e pessoas desonestas demais violentando o potencial humano. Não importa se sua intenção é fazer a música mais extrema ou polka tradicional, desde que isso seja verdadeiro e tenha motivações genuínas, porque no final das contas isso também é política, isso pode ser uma forma de resistência.
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http://www.container-inc.org/

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4 Comentários leave one →
  1. norben permalink
    05/08/2010 17:15

    Gengivas Negras é uma lenda, bela entrevista.

  2. Guilherme permalink
    09/08/2010 17:58

    MEUS MENINOS, ficou muito interessante a entrevista, gostei pra caralho de como ela foi conduzida e da profundidade de certos pontos que foram abordados.
    Com certeza não dá pra ficar indiferente a uma apresentação dos GN. Tanto pela estética quando pelo conhecimento e solidez que tem o trabalho deles.
    MARU, HIGH FIVE

  3. Angelo Noel permalink
    20/09/2010 16:09

    Muito boa entrevista!
    Sou grande fã desse duo que compartilha conosco uma sonoridade honesta e massiva.

  4. Luther permalink
    04/04/2011 17:59

    FODA PRA CARALEEEO

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