Skip to content

Alex Vieira

22/07/2010

Confira entrevista com o pintor, quadrinista, ilustrador e editor capixaba Alex Vieira.

Por: Douglas Utescher

.

Com seu trabalho sujo, sem frescuras e questionador, o jovem Alex Vieira já teve exposição individual e chamou atenção da renomada revista norte-americana Juxtapoz. Irrequieto, é também editor da excelente revista Prego – um dos maiores destaques dos quadrinhos alternativos brasileiros da atualidade – e membro do Coletivo Embira. É ele também quem assina o novo header da UGRA.
Conheça, a seguir, um pouco mais sobre o homem e sua obra.

.

.

Olá, Alex! Para começar, fale-nos rapidamente sobre você, sobre seus projetos passados e sobre como você começou a produzir arte.

Acredito que tenha a ver com meu interesse nos desenhos animados, quadrinhos e cinema na minha infância, já que não tem nenhum artista na minha família. Na adolescência, andar de skate me levou a conhecer a música punk e passei a viver esse estilo de vida chamado “faça-você-mesmo”, mesmo antes de saber que esse slogan exisitia. Comecei a produzir artes para minha própria banda, depois passei a criar cartazes e a partir daí comecei a acompanhar artistas que faziam isso, pesquisando.

.

Conte-nos um pouco sobre a Revista Prego. Como ela surgiu? Qual a motivação inicial e qual é o saldo até o momento?

A Revista Prego surgiu num momento em que eu notei que não existia nenhuma publicação especializada em publicar artes gráficas de pessoas envolvidas com o punk no Brasil. Eu já tinha contato com gente que fazia capas de discos, cartazes e quadrinhos pelo Brasil e resolvi juntar essa galera numa só publicação. Mas a idéia amadureceu um pouco e decidi não me fechar somente no punk, então agreguei artistas independentes de áreas distintas mas que tinham interesses em comum ou compartilhassem de linguagens visuais semelhantes. Assim surgiu a Prego nº1. Até o presente momento, com o selo Prego Publicações lancei:

Revista Prego 1 – 2007
Revista Prego 2 – 2008
Revista Prego 3 – 2009
Revista Prego 4 – 2010
Gente Feia na TV – Quadrinhos de Chico Felix – 2009
Ataque Fotocópia – Skecthbooks de Alex Vieira – 2009
Versão Alterada – ilustrações de Julio Tigre – 2009
Flipbook Medicina Alternativa – 2008

Além disso produzi em parceria com os colaboradores séries limitadas de gravuras (Prego Prints), camisetas e participamos de diversas publicações nacionais e estrangeiras.

.

“Quadrinhos, arte punk & psicodelia” é o mote da Revista Prego. A associação entre punk e arte sempre foi polêmica. Ainda que existam determinados elementos gráficos que sejam geralmente identificados com uma “estética” punk (além, obviamente, da questão musical), há, por outro lado quem afirme que “só um imbecil poderia confundir punk com arte” (Stewart Home, no clássico “Assalto à Cultura”). Qual a visão da Prego sobre isso e o que, exatamente, vocês denominam “arte punk”?

O rótulo “Arte Punk” é controverso por si só, pois carrega dois termos que não possuem definição engessada. Ao usar este título não pretendi mapear uma estética específica e sim evidenciar o trabalho artístico de pessoas envolvidas com o punk. “Arte Punk” é simplesmente arte feita por punks. Por mais que o Stewart Home ou outra pessoa diga que punk é diferente de arte, é impossível negar que o punk se apropriou de diversas linguagens artísticas para se expressar desde o design gráfico às performances. Como eu havia dito uma vez num texto da exposição do Kauê Garcia, “Só um imbecil confundiria punk com arte, diz Stewart Home em seu ensaio sobre o punk. Ok, mas isso não significa que punks não se confundam, muito menos que não sejam imbecis”.

.

De que forma você acha que o punk influencia seu trabalho?

O punk me influencia principalmente na maneira de fazer as coisas, aquele lance de realizar as idéias com o que se tem em mãos, não depender somente de instituições… é claro que esteticamente também influencia muito, mas acredito que atualmente minhas influências vem mais das artes plásticas que do punk.

.

LOTE 64 foi o nome da sua primeira exposição individual, que aconteceu entre janeiro e março deste ano. Qual é a história por trás do nome dessa exposição?

Desde quando comecei a trabalhar com colagens tinha vontade de ter uma máquina de Xerox em casa para não depender mais das bestas que operam essas máquinas nos grandes centros. Devido ao preço, eu nunca achei que teria uma até o momento em que participei de um leilão na Universidade onde eu estudo, a UFES. Foi o maior leilão da história da UFES e tinha de tudo: carros, motosserras, rins artificiais e máquinas de xerox. Arrematei um lote com 12 máquinas fotocopiadoras por R$ 300,00. Nenhuma funcionava, mas consegui consertar uma onde realizei diversos trabalhos: cartazes de shows e fanzines nesses últimos dois anos. A idéia da exposição era ir até o limite de utilização dessas máquinas. Expus grandes painéis em preto e branco, com colagens e pinturas, alguns livros encadernados tipo enciclopédias e colagens menores, usando sempre como suporte placas de madeira, exceto um grande painel ao fundo da exposição onde eu diariamente xerocava algo e colava na parede. As máquinas também faziam parte da exposição e uma delas estava ligada juntamente a um toca disco, como no local onde eu trabalho na minha casa.

.

A máquina de Xerox exerce um papel importante no seu trabalho. O que lhe atraiu nessas máquinas inicialmente? O uso e a função do Xerox modificaram conforme seu trabalho evoluiu?

Uma coisa que não disse na pergunta anterior é que eu não costumo recortar livros e revistas, só quando é algo inútil mesmo, tipo Veja, Caras ou jornais. A única maneira rápida e barata de reproduzir imagens é a fotocópia. Não adianta que scanear e montar no computador não da o mesmo resultado. Com a utilização constante da máquina acabei descobrindo algumas particularidades que utilizo no meu trabalho pictórico.

.

Você trabalha com colagem, ilustração e HQs. Qual dos três é seu favorito e porquê?

Diria que trabalho com pintura, ilustração e HQs, pois a colagem é uma técnica que utilizo nestas três coisas. Minha favorita seria a pintura pois tenho mais liberdade para trabalhar, mas gosto muito das outras também.

.

Sobre seu processo criativo, quanto das suas obras é controlado e previamente planejado? Em que momento você sabe que uma obra está concluída?

Eu possuo um arquivo vasto de imagens e recorro a ele constantemente na hora de produzir as minhas colagens. Quando é uma colagem em que eu utilizo a máquina costumo fazer várias versões da mesma coisa até escolher a melhor. Na pintura vou sobrepondo imagens e camadas balanceando os contrastes de preto e branco até chegar a um resultado em que eu nunca cheguei antes. É curioso que às vezes acho que não terminei um trabalho, o deixo parado por um tempo e fica daquele jeito, ou depois de um tempo tenho uma idéia e o retomo novamente. Costumo fazer mais de um trabalho ao mesmo tempo.

.

Aparentemente, os espaços oficiais de arte no Brasil – galerias e museus – estão cada vez mais tolerantes e interessados nos trabalhos de artistas que vieram ou até mesmo que mantém uma raiz no “underground”. Você acha que está se consolidando um mercado para esse tipo de arte? Como você lida com o lado “mercadológico”  da arte?

Acho que isso tem a ver principalmente com o cenário internacional, basta dar uma folheada em revistas tipo a Juxtapoz que você vai ver diversas de galerias especializadas em graffitti e arte “não-acadêmica”. Acredito que aqui no Brasil tenha mais artista do que gente interessada em comprar as obras, porém existem alguns espaços para este tipo de arte nos grandes centros. Ainda estou começando a lidar com este lado da arte, fora as revistas, fui vender meus primeiros trabalhos na exposição Lote 64 e achei ótimo, pois vi que teve gente que curtiu e compreendeu a proposta.

.

O que é o Coletivo Embira?

O Coletivo Embira é um grupo que foi formado a partir da aprovação em um edital da Secretária de Cultura do Espírito Santo, no qual proporcionava uma bolsa remunerada para produção/pesquisa na área de Pintura. Essa bolsa incluía também um espaço (ateliê) no período de 8 meses para a realização dos trabalhos. O coletivo conta com 4 artistas: Eu, Raphael Araújo, Vinícius Guimarães e Julio Tigre (que também é o orientador do grupo). Agora que passaram os 8 meses de residência, os trabalhos estão expostos até o dia 29 de julho, no mesmo local do ateliê. Pretendemos continuar o Coletivo porém expandi-lo para outras áreas, não fechando somente na pintura.

.

Algo que me chama atenção em seu trabalho é que, ao mesmo tempo que existe a aproximação com a máxima punk do “faça-você-mesmo” (e, consequentemente, a sugestão de que “qualquer um pode fazer isso”), existe também um trabalho de pesquisa e contextualização acadêmica. Qual é o peso da Academia e das questões teóricas no seu trabalho?

Meus trabalhos se aproximam do punk porque antes de entrar no curso de artes eu já desenvolvia atividades nessa área. Assim que entrei na faculdade pude pesquisar mais sobre outras formas de arte e expandir minhas referências, o que foi muito enriquecedor para mim. O peso da academia e das questões teóricas na minha produção é muito maior que a do punk em si até porque não existem muitas fontes de textos que teorizem essa produção. Minhas maiores influências vêm da história da arte, um pouco de filosofia e literatura.

.

Planos para o futuro?

Muitos, mas nada muito definido ainda. A única coisa certa é que são na área das artes. Pretendo continuar fazendo lançamentos com a revista Prego e meus experimentos na área das artes plásticas. Também sonho em ter um espaço próprio onde eu possa fazer isso de uma maneira mais livre. Fiquei mal acostumado com o ateliê do Embira e me sinto preso ao voltar a produzir no meu apartamento, mas estou me adaptando novamente.

.

.

Você pode conhecer mais do trabalho do Alex em:
http://revistaprego.blogspot.com
http://www.flickr.com/photos/smart_alex
http://www.coletivoembira.com.br

.

Anúncios
4 Comentários leave one →
  1. 22/07/2010 10:41

    Grande entrevista! Grande Alex! PUNX ART!!!!!

  2. 22/07/2010 11:29

    Valeu pelo espaço e vida longa à UGRA!!!

  3. 22/07/2010 13:24

    Excelentes perguntas e respostas a altura.

    Saudações

Trackbacks

  1. Coisa de artista | Diário de Bordo- Laíssa Costa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: