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Malditos porteños! (parte 2)

28/06/2010

Segunda parte de nossa série sobre escritores porteños. Depois de Roberto Arlt, é a vez de Horácio Quiroga, grande iniciador do conto latino-americano, cuja vida e obra foi marcada pela morte. Boa leitura!

  

  

A revolta contra a morte de Horácio Quiroga

A biografia de um autor muitas vezes explica, senão a totalidade, pelo menos boa parte de sua obra. Obviamente isso não é uma verdade universal: Isidore Ducasse, cujos escassos registros biográficos nos permitem inferir que teve uma vida completamente medíocre, produziu o monstruoso Os Cantos de Maldoror, um dos livros mais perturbadores dos últimos dois séculos. Há também aquele autor cuja biografia poderia ter sido qualquer uma, pois sua obra parece ganhar uma espécie de vida própria: escritores como Tolkien, Goethe e, entre nós, Machado de Assis.

Por oposição, há autores cuja trajetória marca profundamente seus principais temas, dando aos textos um caráter biográfico de tal intensidade que é impossível separar autor e obra: aqui podemos citar John Fante e, claro, seu rebento Bukowski. Nas aventuras do menino Bandini e nas bebedeiras de Henry Chinaski encontramos não apenas o personagem, mas também muito do autor que, oculto pela trama ficcional, deixa ali registrado fatos vividos.

Pode-se dizer que Horacio Quiroga (1878-1937) é um desses escritores que, caso não conheçamos sua vida, então não compreenderemos sua obra.  Somente assim entende-se por que em seus contos, gênero que cultivou com presteza e que lhe rendeu a justa atribuição de pai do conto latino-americano, mortes violentas, inesperadas e absurdas acontecem a todo o momento.

Quiroga aos 19 anos.

Dizer que somente pela biografia dele é possível compreender sua obra de forma alguma é exagero quando, sabendo o nome de seu livro mais famoso, Historias de amor, de locura y de muerte, somos informados de que o pai de Quiroga se suicidou quando esse tinha ainda três anos; que o seu padrasto, após uma hemorragia cerebral o deixar parcialmente paralítico, segue o mesmo caminho e se suicida na frente dele de uma forma horrenda (mordeu a boca do cabo de uma espingarda e apertou o gatilho com o pé); que poucos anos depois Quiroga, examinando umas pistolas de duelo, mata com um tiro acidental seu melhor amigo; que dois de seus irmãos se suicidam; que sua primeira mulher, vítima de uma depressão terrível, também põe fim a própria vida; e como uma espécie de sina macabra, de um Destino que permanece insondável para a compreensão humana, após a morte de Quiroga os seus três filhos, um após o outro, também se suicidam.

As conseqüências de um itinerário tão peculiar serão abordadas em seguida. Antes, porém, uma explicação sobre um ponto que um possível conhecedor da obra de Quiroga poderia levantar: se o nome da coluna é Malditos porteños!, então por que diabos falar sobre Quiroga que, embora tenha participado da vida cultural de Buenos Aires por anos, era na verdade um uruguaio de Salto? A justificativa para isso encontramos em uma interessantíssima proposição de Emir Rodríguez Monegal em “Genio y figura de Horacio Quiroga” (Eudeba, Buenos Aires, 1967) que diz:

 

“[Quiroga] tem como poucos o direito de não ser nem uruguaio nem argentino, mas sim rio-platense. Por sua tradição, por seu sangue, pelo resumo de sua vida, pertence à região do Rio da Prata, essa região que também abarca, geográfica e culturalmente, todo o sul do Brasil, todo o Paraguai e boa parte da Bolívia”

 

Se é possível discordar dessa ampla geografia em que o autor consegue enxergar uma coesão cultural que me parece de todo improvável, o conceito de “escritor rio-platense” soa interessante e esclarecedor, no sentido de que alguns traços comuns podem ser encontrados em nomes tão díspares como Quiroga e Arlt: ambos realizaram obras lingüisticamente inovadoras, aproximando-se da fala cotidiana (e assim marcando um distanciamento da tradição espanhola) e inserindo em seus escritos um universo de preocupações metafísicas (apesar da aparente crueza e superficialidade de seus textos). Em outras palavras: é o universo dos escritores do Rio da Prata como um todo, dos que de algum modo mantiveram uma identidade cultural com a região e a esfera de influência que foi Buenos Aires, que nos interessa para o desenvolvimento dessa série.

Voltemos a Quiroga. Sua extensa obra (onze livros, intensa atividade epistolar, incursões no teatro e no cinema, diversos artigos e contos espalhados em revistas variadas) inicia-se em 1901 com Los arrecifes de coral, obra um tanto irregular, reunindo poesias e prosas poéticas com uma franca veia decadentista. É ainda o jovem Quiroga, a quem Jorge Lafforgue, coordenador da edição crítica lançada pela Alca XX e Edusp, considera nessa época como uma espécie de dândi latino-americano, recém-chegado de uma temporada européia onde teve contato com a boemia literária de Paris – experiência vital para Quiroga, por permiti-lo reconhecer a si mesmo como um estranho para aquele mundo intelectual, antecipando o desenvolvimento de seu itinerário algo misantrópico.

É nessa mesma época que mata acidentalmente seu melhor amigo, e também quando muda para Buenos Aires, morando junto a sua irmã mais velha, na busca de um pouco de tranqüilidade. Estamos em 1903: ano decisivo, participa como fotógrafo em uma expedição de estudos às ruínas jesuítas de Misiones, no norte argentino. É o primeiro contato com a selva, com a desolada e solitária região fronteiriça, com as margens do grandioso Rio Paraná e a desafiadora natureza que o circunda.

A casa em Misiones.

O deslumbramento de Quiroga com a região o fez mudar-se para lá, em uma desastrosa experiência como cultivador de algodão; do ponto de vista empresarial foi um fracasso absoluto, mas lhe proporcionou a imersão em larga escala em uma natureza dura e intratável. Não obstante, é em meio aos trabalhos braçais em sua propriedade que escreve o seu primeiro livro de contos, El crimen del otro (1904). Aqui sua escritura já se mostra livre das denguices decadentistas: torna-se árida, concisa, demolidora. Já não é mais um autor em aprendizagem: a geografia do norte argentino impregna suas páginas e a infrutífera ação humana perante a Natureza comparece como seu principal tema.

De volta a Buenos Aires em finais de 1905, insere-se novamente na vida cultural portenha. Retorna ao magistério, atividade que desempenhara em sua primeira temporada na cidade. Colabora com inúmeras revistas. Publica um romance, Historia de um amor turbio (1908). E em fins do mesmo ano casa-se com Ana María Cirés, uma aluna de quinze anos (tinha ele então trinta). Logo após a união matrimonial, muda-se para Misiones, onde atuará como um juez de paz,  cargo administrativo federal que seria algo entre um prefeito e um delegado. A atividade lhe garante algum dinheiro e, principalmente, uma reserva de tempo livre para dedicar-se à exaustão em atividades manuais em sua propriedade (Quiroga construiu sozinho um sobrado em frente ao Rio Paraná) e, claro, escrever seus contos. “A la deriva”, provavelmente um de seus melhores contos, data desse período, que se estendeu até 1915, ano em que sua esposa se suicida.

Volta para Buenos Aires em 1916 com os dois filhos desse primeiro casamento. Sua obra torna-se gradualmente reconhecida. No ano seguinte publica Cuentos de amor, de locura y de muerte, cuja rápida e entusiástica aceitação lança Quiroga como um importante escritor. Está em sua maturidade: os contos, brevíssimos, contém tão somente o essencial, em uma secura vocabular que apresenta situações onde o homem se depara com a morte em suas mais variadas facetas. E como pano de fundo para essas mortes (sempre) violentas, a selva misionera, o implacável clima do norte argentino, que cumpre um papel que arrisco a dizer metafísico, no sentido de mostrar-se não como uma natureza virgem e intocada, mas como uma manifestação da pura solidão, do isolamento e da impenetrabilidade da Natureza pelo entendimento humano. Nisso se difere, e radicalmente, a escritura de Quiroga em relação à tradicional prosa regionalista, que muitas vezes se restringe a tão somente esmiuçar os “costumes” e a suposta “cor local” de regiões rurais. Sobre isso, cito o cronópico Cortázar no ensaio “Alguns aspectos do conto”:

“Quiroga, Güiraldes e Lynch eram escritores de dimensão universal, sem preconceitos localistas ou étnicos ou populistas; por isso, além de escolherem cuidadosamente os temas de suas narrativas, submetiam-nos a uma forma literária, a única capaz de transmitir ao leitor todos os valores, todo o fermento, toda a projeção em profundidade e em altura desses temas. Escreviam tensamente, mostravam intensamente. Não há outro modo para que um conto seja eficaz, faça alvo no leitor e se crave em sua memória”

Dissemos no começo que Quiroga é um escritor que se define pela sua biografia, e que as constantes mortes que presenciou influenciaram completamente a escritura de seus contos. Diante disso, seria lógico dizer que o tema de Quiroga é a morte. Porém, uma leitura mais atenta de sua obra mostra que não é exatamente isso. Um de seus críticos, Pedro Luis Barcia, diz:

 

“O tema do conto de Quiroga não é, como se diz habitualmente, a morte; é a perplexidade do homem ao enfrentar-se com ela; mais ainda, é a resistência tenaz do homem que reconhece que morre, a negação dessa idéia, a não aceitação dessa consciência”

 

Quiroga e sua segunda esposa.

Tiro certeiro, fio do machado, inseto sanguinário, veneno de cobra, malária, febre fulminante, sol incandescente: seja qual for o agente produtor, o que unifica essa diversidade é a casualidade da morte. Porque seja qual for o seu momento, a morte cai como um raio, como um lance de dados, como uma roleta russa. O homem é um bicho jogado no mundo que observa a morte com assombro e incredulidade; cotidianamente tenta, de todas as formas, convencer-se de que ela não acontecerá; que é possível ocultá-la da consciência e, assim, colocá-la sempre para o futuro (cremes antiidade, cirurgias plásticas e demais processos de rejuvenescimento não são apenas estéticos, mas desesperadas e frustradas tentativas de afirmar-se como inapto para a morte).

A vontade humana luta sem cessar contra esse aniquilamento derradeiro: é pela vontade que conseguimos compreender esse Quiroga, um homem da cidade, um escritor que visitou Paris com ares de dândi latino-americano, de repente se transformar em um gaucho que trabalha sob o sol avassalador do Norte; que leva sua família a morar literalmente no meio do nada; que constrói sua casa com as próprias mãos; que tem que remar por dois dias seguidos para alcançar o povoado mais próximo; que abandonado pela segunda esposa, mulher que se sentia sufocada em Misiones, refugia-se ainda mais em seu isolamento; parece mesmo que estava desafiando alguma coisa, que não queria se render. Assim entendemos o seu suicídio em Buenos Aires, no ano de 1937, quando os médicos diagnosticam que um câncer já estava em grau avançado e nada mais poderiam fazer; a ingestão de um copo de cianureto é seu gesto de negação das humilhações do momento final, da incapacidade humana perante o Irremediável; seu suicídio, enfim, como um último (e contraditório) gesto de vontade e revolta contra a morte.

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One Comment leave one →
  1. 05/10/2011 12:07

    nooosaaaaaa homem é malucooooooooooooo veioooo

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