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Malditos porteños!

28/05/2010

Nem só de Borges e de Cortázar vive a rica literatura do Rio da Prata. Há outros nomes para ler, outros horizontes para apreciar. Conheçam os Malditos porteños!

 

 

Por: L. Marcio

Aproveitando a semana onde se comemora o bicentenário da independência da Argentina, a UGRA lança Malditos porteños!, uma série sobre escritores argentinos que, por razões várias, são subvalorizados ou simplesmente esquecidos pela crítica literária. Aqui vamos falar de nomes pouco conhecidos no Brasil e que representam a mais radical e inovadora produção de nossos hermanos do Sul.

 

 

Roberto Arlt, ou a escritura da delinqüência

 

“… irei pela vida como se fosse um morto. Assim vejo a vida: como um grande deserto amarelo.” (do romance “El juguete rabioso”)

 

Buenos Aires, começo do século XX. Uma cidade completamente diferente, sem o charme de suas ruas que exalam nostalgia, sem hordas de turistas tupiniquins que a transformaram no Paraguai da classe média brasileira. Uma cidade (relativamente) nova, cheia de imigrantes italianos, alemães, poloneses e judeus na luta pela sobrevivência no lado sul da América Latina. Efervescência cultural, agitação política de fortes cores anarquistas, protestos callejeros por melhores condições de trabalho e, claro, repressão pra valer: só na Semana Trágica de fevereiro de 1919 as forças policiais mataram mais de 700 trabalhadores grevistas. Nem de longe isso se assemelha com os protestos que ainda ocorrem por lá praticamente todos os dias.

Nessa mesma cidade encontramos uma elite que vive o sonho de progresso material, rebentos pútridos da aristocracia espanhola sobrevivente do 25 de maio de 1810, dia da declaração da independência argentina. Alheios ao mundo dos bairros portenhos afastados do centro, deliciando-se confortavelmente nos cafés da Recoleta e adjacências, essa elite guarda em comum com as demais elites latino-americanas o gosto desmesurado pela extravagância e a ilusão de pertencerem a um outro mundo, um mundo de faz de conta onde todos são felizes e a miséria é uma questão individual.

Roberto Arlt (1900-1942), o maldito porteño do qual falaremos nesse post inaugural, definitivamente não faz parte dessa elite.

De origem humildíssima, desde muito jovem Arlt conheceu a dura realidade da vida nas ruas: seus biógrafos dizem que saiu de casa aos 16 anos, por desentendimentos constantes com seu pai, um prussiano do qual herdou o gosto pelas invenções e trabalhos científicos. Para ganhar a vida, trabalhou de tudo: ajudante em uma livraria, operário em uma fábrica de ladrilhos e aprendiz de funileiro, para citar apenas algumas de suas ocupações. Mas foi como jornalista, profissão adotada a partir de 1916, que Arlt conseguiu alguma (precária) estabilidade econômica, e foi graças a isso que conseguiu travar contato com os círculos literários portenhos.

Nunca se filiou a nenhum partido mas, igualmente, jamais permaneceu neutro no conturbado cenário político da Buenos Aires dos anos 20 e 30. Recheou sua enorme e diversificada produção literária e jornalística com opiniões radicais, que não poupavam a ninguém: nem as camadas burguesas, em sua prepotente atitude lambe-bolas da Europa, nem muito menos os meios revolucionários, criticados por Arlt por mover-se em uma insanidade cega na busca pelo poder e desconhecendo completamente a realidade das ruas e das pessoas comuns.

Essa iconoclastia e independência, como era de se esperar, lhe granjeou inimigos de ambos os lados. A intelectualidade da época dividia-se em dois grupos: o da Florida, bairro rico, eram burgueses e conservadores, tendo a revista Sur como pólo aglutinador; os de Boedo, proletários e os progressistas. Muitas vezes é comum colocar Arlt como mais próximo do grupo de Boedo, embora nunca tenha tido nada a ver com eles. Sua formação era mesmo a das ruas, e sua visão do ofício do escritor absolutamente raivosa, individualista e banhada em um sentimento de classe onde fica evidente o nojo pelos bem-nascidos e pomposos escritores freqüentadores de cafés. Essa postura comparece nesse trecho do prefácio do romance Los lanzallamas (1931):

 

“Orgulhosamente afirmo que escrever, para mim, constitui um luxo. Não disponho, como outros escritores, de rendas, tempo ou relaxantes empregos no funcionalismo público. Ganhar a vida escrevendo é penoso e duro.”

 

E ainda mais:

 

“Para criar um estilo são necessárias comodidades, dinheiro, vida folgada. Mas no geral as pessoas que desfrutam de tais benefícios sempre evitam o incômodo da literatura. Ou a encaram como um excelente método para singularizar-se nos salões da sociedade.”

 

Seu sentimento de classe e raivosa crítica tanto dos círculos burgueses quanto dos progressistas não bastaria, porém, para tornar a escritura de Arlt singular, já que muitos antes dele fizeram denúncias similares. O exemplo maior seria Dostoiévski, especialmente em “Os demônios”, paralelo que os seus poucos analistas já apontaram. Arlt conseguiu dar ao seu texto uma originalidade perturbadora, somando à narrativa inúmeras alusões às artes esotéricas e uma densidade psicológica feita não através de excessos retóricos, mas com cruas e violentas orações repletas de oralidade, estrangeirismos e lunfardo (dialeto da região portuária de Buenos Aires). E esse seu estilo o colocou, injustamente, no baixo patamar dos maus escritores – quando na verdade era uma operação demolidora, no nível lingüístico, de combate a uma literatura fantasiosa e ensimesmada, incapaz de absorver o zeitgeist conturbado daquele momento do Entre Guerras.

Tudo isso -a crítica social devastadora, as referências místicas, uma “mitologia” de personagens bizarros, a linguagem das ruas- dá para Arlt muitos trunfos, no sentido de que ele trouxe para a literatura argentina daquela época um bando de tipos que jamais tinham sido retratados nas páginas consagradas.  Não faz isso como uma busca pelas margens da sociedade, em uma espécie de sentimentalismo burguês: ele estava lá desde sempre, respirando o cotidiano das pessoas sem dinheiro, vivenciando suas mazelas e podridões, batalhando na insana luta pela sobrevivência e, entre todas as brutalidades da miséria e da delinqüência, conseguindo produzir seus escritos e alcançando um público leitor cada vez mais amplo.

É no romance Los siete locos (1929) que Arlt conseguiu a mais perfeita combinação desses elementos. O protagonista, Remo Erdosain, é um cobrador da Companhia Açucareira que, após ser desmascarado no trabalho como ladrão, é traído pela esposa, uma mulher neurótica que o odeia e o humilha das mais variadas formas. Os dois incidentes o arremessam nas ruas de Buenos Aires, que o talento de Arlt transformou em uma cidade suja, angustiante e claustrofóbica. Ingressa em uma sociedade secreta liderada por um homem chamado apenas de “o Astrólogo” (sem dúvida alguma o personagem mais fantástico do livro), e junto com outros personagens arquitetam um plano: um apocalipse revolucionário que exterminaria três quartos da sociedade portenha, construindo fábricas de gases tóxicos que, no momento oportuno, envenenariam o ar de Buenos Aires. Essas fábricas seriam custeadas por uma rede de prostituição mantida pelo Cafetão Melancólico (outro memorável personagem de Arlt), além de outra série de atividades criminosas, como seqüestros. A destruição se espalharia pelo mundo, que seria renovado pela violência total; apenas os mais dignos de pé, longe das cidades. Nas palavras do Astrólogo:

 

“Você sabe o que é o proletariado, anarquista, socialista, de nossas cidades? Um bando de covardes. Em vez de romper a alma na montanha e nos campos, preferem as comodidades e os divertimentos à heróica solidão do deserto. Que seria das fábricas, das casas de moda, dos mil mecanismos parasitários da cidade se os homens fossem para o deserto, se cada um fosse para lá levantar sua tenda?”

 

A crítica que Arlt faz com Los siete locos tem uma direção clara e é preciso lê-lo de acordo com esse contexto. O fascismo estava à porta e conseguiria sua primeira vitória no continente no ano seguinte ao lançamento do livro: em 1930 o general José Felix Uriburu é declarado presidente após um golpe de estado, onde as forças armadas argentinas em conjunto com a Igreja Católica voltam a assumir o poder – ou seja, só gente boa tomando conta das coisas. Alegoricamente, Los siete locos é um violento ataque às ambições da burguesia que apoiou o golpe, cuja vontade conservadora fez com que as forças mais nefastas alcançassem o poder. Ao mesmo tempo, a abrangência simbólica do livro transcende o momento histórico de seu nascimento por fazer coro ao que o velho Cioran escreveu sobre como as idéias, inflamadas pelas paixões humanas, se transformam no combustível dos genocídios:

 

“Em si mesma toda idéia é neutra ou deveria sê-lo; mas o homem a anima, projeta nela suas chamas e suas demências; impura, transformada em crença, insere-se no tempo, toma a forma de acontecimento: a passagem da lógica para a epilepsia está consumada… Assim nascem as ideologias, as doutrinas e as farsas sangrentas.”

 

Edições de Roberto Arlt lançadas no Brasil são bem difíceis de encontrar. A Iluminuras lançou em 2000 uma edição reunindo Los Siete Locos e Los Lanzallamas, seus romances mais representativos. Outros lançamentos são mais antigos e mesmo assim em única edições, mostrando que a divulgação dele por aqui nunca foi das melhores. Los siete locos também teve uma versão para o cinema em 1973, com direção de Leopoldo Torres Nilsson.

A obra completa de Roberto Arlt (em espanhol) está disponível para download aqui.

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2 Comentários leave one →
  1. 01/06/2010 09:14

    ‘[…El Astrólogo] Dijo:
    ­ Sí, llegará un momento en que la humanidad escéptica, enloquecida por los placeres, blasfema de impotencia, se pondrá tan furiosa que será necesario matarla como a un perro rabioso…
    ­ ¿Qué es lo que dice?…’

    Que tal traduzir/publicar Arlt, amigos? Posso ‘trabajar’ em tal. Fácil.

  2. 01/06/2010 09:30

    E posso escrever sobre Sabato e postar aqui?

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