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Domingo sombrio

16/05/2010

O que Billie Holiday, Diamanda Galás e Anton LaVey têm em comum?
A música húngara do suicídio.

Por: Douglas Utescher

“Szomorú vasárnap” é uma canção escrita em 1933 pelo pianista e compositor húngaro Reszo Seress. A letra original de Seress, carregada de amargo desespero (aparentemente, uma reflexão sobre os horrores da cultura moderna), foi logo substituída pelos versos tristes e melancólicos do poeta László Jávor.

Uma vez levada a público, “Szomorú vasárnap” rapidamente ganhou a reputação de “música do suicídio”. Segundo a lenda, na época pelo menos 17 cidadãos húngaros se suicidaram das mais diversas formas graças aos versos fatalistas ou à assombrosa melodia da canção. Conta-se também que, quando a música se tornou popular na Hungria, durante alguns meses, aos domingos, jovens estudantes dirigiam-se à ponte Széchenyi Lánchid, onde deixavam uma flor e uma cópia da letra de “Szomorú vasárnap” antes de se arremessarem de encontro à própria morte.

É difícil ter certeza quanto à veracidade destas informações, especialmente considerando a reputação da Hungria. Conhecida como a “mais sombria nação européia”, a Hungria deteve, por muitos anos, a liderança na taxa de suicídios mundial (em 1984 a estatística atingiu a marca de 45,9 suicídios para cada 100.000 pessoas). Fora isso, é comum também que suicidas deixem referências a livros, filmes ou canções populares no momento de suas mortes – o que não significa, necessariamente, que sejam estes os verdadeiros motivadores do ato.

Mas, afinal, o que teria motivado Seress a escrever uma canção tão desesperançosa e poderosa? Também quanto a isso nada é certo, mas a hipótese mais conhecida é que a inspiração tenha sido o término de um romance. O sucesso da música, no entanto, em nada teria ajudado Seress. Quando “Szomorú vasárnap” se tornou um best seller local, o compositor, entusiasmado e planejando reatar o namoro, procurou a ex-amante. No dia seguinte a garota se matou com veneno, deixando a seu lado um papel contendo duas palavras: “Szomorú vasárnap”.

Pouco tempo depois, já mal-afamada, a música chegou à Inglaterra em uma versão instrumental. Mesmo sem letra, há quem acredita que a música tenha feito estrago no Reino Unido. Conta-se que um policial londrino, após reparar que esta versão estava sendo tocada por horas a fio em um apartamento, resolveu investigar o que estava acontecendo. Ao entrar no recinto, encontrou um fonógrafo automático tocando repetidamente a música. Próximo ao aparelho havia uma mulher morta por overdose de barbitúricos. De acordo com o causo, após esse incidente a BBC londrina teria banido a canção de sua programação.

Em 1936, finalmente, o hino do suicídio atinge os Estados Unidos. Com o nome “Gloomy Sunday”, a primeira versão americana da música teve sua letra adaptada do húngaro por Desmond Carter e interpretação de Paul Robenson. A consagração, porém, chegaria apenas em 1941, na voz da Billie Holiday e com letras de Sam Lewis. Diferente do original húngaro e da versão de Carter, cujas letras continham apenas 2 estrofes, Lewis, aparentemente buscando tornar os versos de “Gloomy Sunday” menos soturnos, introduziu à letra uma terceira estrofe onde narra que toda a desgraça cantada até então não passava de um sonho e que tudo estava bem. Em certa ocasião, Diamanda Galás, ao anunciar sua interpretação de “Gloomy Sunday” em um concerto, comentou sobre esta segunda versão:

 

“Esta próxima música já foi cantada pela Billie Holyday. Chama-se “Gloomy Sunday”. Ela foi primeiramente gravada no rádio e houve um protesto da gravadora porque a música era muito pessimista, depressiva, e então eles a mudaram para torná-la mais otimista e cheia de esperança. Naquele momento nascia a primeira música pop.
Eu não a tocarei desse jeito, logicamente.”

 

 

Há quem diga que as lendas sobre a amaldiçoada canção húngara foram em grande parte exageradas ou até mesmo forjadas em uma estratégia de marketing para introduzi-la no mercado norte-americano. Michael Brooks, em uma nota na compilação “Lady Day – the Complete Billie Holiday on Columbia, 1933-1944”, escreveu: “Gloomy Sunday atingiu a América em 1936 e, graças a uma brilhante campanha publicitária, ficou conhecida como ‘a canção húngara do suicídio’. Supostamente, após escutá-la, amantes perturbados eram hipnotizados a se lançarem pela janela mais próxima, da mesma forma como fizeram os investidores depois do outubro de 1929; sendo que ambas histórias são em grande parte mitos urbanos”. De um jeito ou de outro, o fato é que, especialmente desde que foi gravada por Billie Holiday, “Gloomy Sunday” exerce um estranho fascínio nas pessoas. Por cerca de 7 décadas consecutivas essa triste canção tem sido revista, regravada e reinterpretada por músicos dos mais diversos estilos e nacionalidades. Sua letra foi adaptada a idiomas como francês, sueco, chinês, japonês e até esperanto e a lista de artistas que se aventuraram a gravá-la inclui nomes que vão de Elvis Costello a Venetian Snares, sem dispensar a densidade arrebatadora da já citada Diamanda Galás, o pop canastrão de Serge Gainsbourg ou o black metal meia-boca do Negator. Estima-se que existam mais de 80 versões diferentes gravadas de “Gloomy Sunday”.

Além da indústria fonográfica, “Gloomy Sunday” também marcou presença nas telas. No filme “The Man Who Cried” (no Brasil, “Porque Choram os Homens”), de Sally Potter, a personagem de Christina Ricci canta a música a bordo de um transatlântico. Ela também aparece no início de “A Lista de Schindler” e inspirou pelo menos outros dois filmes: o espanhol “La Caja Kovak” e a co-produção húngara-alemã “Ein Lied von Liebe und Tod”.

Mas qual terá sido o fim de Reszo Seress, o homem que, sem querer, iniciou tudo isso? Suicídio, é lógico. Em 14 de janeiro de 1968, uma nota no jornal The New York Times dizia:

 

“Budapeste, 13 de Janeiro. Rezsoe Seres, de quem o hit fúnebre “Gloomy Sunday” foi acusado de desencadear uma onda de suicídios durante os anos 1930, terminou sua própria vida com um suicídio, soube-se hoje. As autoridades divulgaram que o Sr. Seres pulou de uma janela de seu pequeno apartamento aqui no último domingo, pouco depois de seu 69º aniversário. A década de 1930 foi marcada por severa depressão econômica e pela agitação política que levou à Segunda Guerra Mundial. A melancólica canção escrita pelo Sr. Seres, com palavras de seu amigo, Ladislas Javor, um poeta, declara em seu climax, “meu coração e eu decidimos acabar com tudo isso”. Ela foi acusada por um aumento acentuado de suicídios, e as autoridades Húngaras finalmente a proibiram. Na América, onde Paul Robeson introduziu uma versão em inglês, algumas estações de rádio e clubes noturnos proibiram sua performance. O Sr. Seres reclamava que o sucesso de “Gloomy Sunday” na verdade aumentou sua infelicidade, porque ele sabia que nunca seria capaz de escrever um segundo hit.”

 

A todos vocês que não têm idéia do que fazer em um domingo, está dada a dica.
Chega de Fantástico!

 

 

“GLOOMY SUNDAY” [UGRA MIX TAPE]

1 – Paul Robeson
2 – Billie Holiday
3 – Mel Tormé
4 – Diamanda Galás
5 – Kronos Quartet
6 – Marianne Faithfull
7 – Genesis
8 – Venetian Snares
9 – Lydia Lunch
10 – Christian Death
11 – Bjork
12 – Elvis Costello
13 – Serge Gainsbourg
14 – Anton LaVey
15 – Ghoul
16 – Negator
 
 
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6 Comentários leave one →
  1. 16/05/2010 23:18

    Interessante!!

    acho que o link não está funcionando.

  2. Leo permalink
    17/05/2010 12:08

    Essa versão da Diamanda é linda. Se parte dessas histórias forem reais, pelo menos podemos concordam que é uma bela música para os momentos derradeiros. Adolescentes podiam parar de se matar ouvindo My Chemical Romance; assim nós é que morremos de vergonha.

  3. Michelle permalink
    20/05/2010 11:28

    Sarah Brightman e Heather Nova tb fizeram versões para essa música. 🙂

    • 20/05/2010 12:30

      Sim, sim! E muitos outros além deles também.
      Aliás, a versão da “Gloomy Sunday” que circula na web como sendo do Portishead na verdade é a versão do Heather Nova. O Portishead nunca gravou esta música, pelo que sei.

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