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Sobre quadrinhos e andróides

15/04/2010

Entrevistamos o artista multimídia Law Tissot, um autêntico homem da renascença com espírito cyberpunk.

 

 

Por: Douglas Utescher

Law Tissot é professor de Artes Visuais, editor de fanzines, desenhista de histórias em quadrinhos, diretor de curta-metragens e videoclipes e produtor cultural, segundo o blog da Fanzinoteca Mutação, louvável projeto do próprio Law. Mais impressionante que seu currículo, no entanto, é a qualidade de seu trabalho. Dono de um traço inconfundível, Law criou um universo repleto de citações às subculturas das décadas de 80 e 90, onde personagens decadentes vagam por paisagens de um futuro pouco animador mas absolutamente fascinante. É o princípio básico da estética Cyberpunk, sim, mas tratado com personalidade suficiente para distanciar sua obra de qualquer clichê do gênero. É ele também quem assina a arte do novo header deste blog.

Na entrevista a seguir, Law fala sobre sua trajetória artística, sobre suas influências e sobre sua paixão incondicional pelos (fan)zines.

Você começou a fazer zines em 1984. Como era o Law Tissot daquela época e o que o levou a começar a editar?

Rio Grande sempre foi uma cidade que produziu arte, talvez em razão do porto… mesmo localizada no interior, no extremo sul do RS. Lembro que nos anos 80, por termos uma tradição muito forte com a música, a explosão do rock brasileiro – e gaúcho – aconteceu com muita força. De repente eram todas aquelas garagens que reuniam as bandas, as turmas. Neste ambiente surgem os fanzines, as informações dos grandes centros do país. Nesse período tive oportunidade de editar o fanzine Mutação (novembro de 1984), junto de outros amigos. Depois não parei mais de fazer histórias em quadrinhos, criar zines, tocar em bandas. Foi uma época de muitas descobertas, e havia toda uma cena underground em pleno desenvolvimento em qualquer cidade do Brasil.

Eu era bastante parecido com qualquer adolescente daquele período que tivesse se apaixonado pelo rock e as aventuras urbanas.

  

Você tem um traço e uma narrativa bem peculiares. Dentro dos quadrinhos, quais são suas inspirações?

No princípio foram os caras da Marvel ou DC, Jack Kirby mais provavelmente. Depois vieram os artistas da Metal Hurlant que seriam a influencia mais determinante em vários aspectos gráficos e narrativos, como Moebius e Druillet. Mas tenho tantos outros artistas que admiro – e coleciono – como Hugo Pratt, Mattotti, Crepax… Sou muito fã dos roteiros do Grant Morrison para as séries Doom Patrol e The Invisibles. Este tipo de quadrinho repleto de citações artísticas e conspirações tecnológicas me agradam bastante.

  

É notório que seu trabalho recebe influências de outros meios além dos quadrinhos, especialmente música e cinema. Fale um pouco a respeito.

Como disse, creio que a efervescência cultural dos anos 1980 tinha essa característica mesmo, as subculturas se misturavam, comungavam, circulavam juntas… quadrinhos, poesia, bandas de rock, punks, etc. Todos esses assuntos influenciavam meu modo de ver o mundo, o que refletia naturalmente na minha arte. Sempre gostei do Punk inglês da primeira fase, Sex Pistols, Generation X… Depois foram todas aquelas bandas góticas e seus músicos performáticos, Bauhaus, Sisters Of Mercy, Siouxsie, The Cure, Alien Sex Fiend… Tem também o Sigue Sigue Sputnik, uma banda bastante odiada naquela época, mas que tinha um conceito pós-moderno de vanguarda para época. Um projeto multimídia com uma estética pré-cyberpunk.

  

Frequentemente, em suas histórias e entrevistas, surge o slogan No Future. Você chega a tratar mesmo de um discurso No Future. O que seria esse discurso? Qual é sua origem e qual é sua mensagem?

Penso que o uso do slogan “No Future” seja apenas uma lembrança que não quer morrer a respeito da cena Punk de 1977… Sex Pistols e o Contingente de Bromley foram os últimos dos Dadaístas a pisar neste planeta. Eles, mais do que qualquer um de nós, sabiam o que significava “No Future”…

 

A ideia de cyberpunk surgiu na década de 80, profetizando um futuro distópico a partir da realidade daquela época. Cerca de 3 décadas depois, muita coisa mudou no mundo. O quão relevante você acredita que ainda são hoje as ideias cyberpunks?

Acho que a estética Cyberpunk dentro da indústria do entretenimento ainda vai dar suas caras mais vezes. Todas as possibilidades narrativas são bastante amplas. E comercialmente atraentes. Em outros aspectos antropológicos, científicos e filosóficos vejo que o Cyberpunk se diluiu em guetos sofisticados. E exclusivistas. De resto a sociedade ainda sofre de mazelas primárias, muito mais importantes e urgentes para serem discutidas do que robôs, chips e realidade virtual.

 

Recentemente houve um boom nas livrarias quanto ao lançamento de álbuns de quadrinhistas brasileiros, incluindo nomes que por anos estiveram ligados quase que exclusivamente à produção underground, como Marcatti e Luciano Irrthum. O que você acha que mudou no mercado brasileiro? Você tem planos para lançar uma publicação nesses moldes também?

Não é a primeira vez que me fazem essa pergunta. Ainda fico surpreso com isso. Minha produção de quadrinhos é muito experimental, profundamente enraizada com a cena underground (se é que ainda existe uma). Ou seja, eu crio HQs que quase sempre são distribuidas apenas pelos fanzines ou em revistas independentes. Esse mercado de álbuns que despontou pode mesmo ser uma possibilidade para tantos autores ansiosos e talentosos. Mas ainda não me entusiasmei com a idéia. Meu ritmo de trabalho permite muita liberdade criativa e, além disso, alguém tem que manter os fanzines vivos!

 

Para você, a auto-publicação é uma opção ou uma condição?

É uma opção. Quer dizer, nunca procurei nenhuma editora, nunca montei um portfolio de olho num suposto mercado. Ainda acredito que do jeito que está, meus quadrinhos fazem mais sentido. Prefiro ficar alheio a todas as discussões que a “conquista pela publicação e distribuição” implicam aqui no Brasil. Mas já fiz algumas experiencias editoriais nessa direção, em revistas independentes como o Areia Hostil, editado ao lado do quadrinhista Lorde Lobo. Foram 15 edições entre 2001 e 2006. É muito frustrante captar patrocínio, lidar com gráfica, distribuidores, etc. Nunca tive a competência nem a sorte de algum sucesso editorial mais significativo. Mas quando trabalho só com os fanzines, arte pela arte, fico sempre feliz com todos os resultados.

 

Falando em auto-publicação, você está à frente do projeto da Fanzinoteca Mutação. Poderia nos contar um pouco da história desta iniciativa?

Ha mais de 25 anos que edito fanzines, e assim tenho circulado e publicado dentro da cena brasileira (e, em alguns zines do exterior também). Isso me fez ter desejos de legitimar essa relação de várias formas. Uma delas foi meu trabalho de conclusão do Curso de Artes Visuais, da Universidade Federal do Rio Grande, uma pesquisa sobre a história dos fanzines de minha cidade, Rio Grande. A partir de então surgiu a idéia de criar uma fanzinoteca para resgatar e preservar os fanzines brasileiros desde os anos 1980. Através do Prêmio de Interações Estéticas 2009 – Residências Artísticas em Pontos de Cultura – FUNARTE – pude realizar esse sonho, dentro do Ponto de Cultura ArtEstação, localizado no Balneário Cassino, em Rio Grande RS. O projeto segue em desenvolvimento, mas com muitas conquistas. O acervo se amplia constantemente através de doações, temos muito material bibliografico para apoiar possiveis pesquisas, também realizamos oficinas livres e gratuitas, onde oferecemos uma máquina de xerox para as criações dos interessados.

 

Você é evidentemente um apaixonado pelos fanzines. O que tanto lhe atrai nessa mídia? Na sua opinião, qual é o papel do fanzine hoje, frente à popularização da internet e à informação em tempo real?

Os fanzines são uma mídia livre por execelencia. Além de todas as possibilidades criativas que podemos lançar mão, sem absolutamente nenhum tipo de censura. Pode-se experimentar vários formatos, diferentes estéticas a partir da arte-xerox, e depois reproduzir quantos exemplares desejarmos. Distribuir de mão em mão ou pelo correio. E tem as próprias trocas com outros zineiros que é sempre fascinante. 

 

Muitos dos ativistas do underground das décadas de 80 e 90 são hoje jornalistas, designers, advogados ou professores, mas ainda mantém laços com o meio de onde vieram. Você, como professor, sente a influência deste background em seu trabalho? Como os alunos recebem isso?

Sendo um arte-educador, todas as aventuras que vivi neste riquíssimo ambiente urbano – desde a década de 1980 – me oferecem um repertório diferenciado, é verdade. Com isso posso trabalhar com meus alunos algumas expressões artísticas que aprendi nesta jornada. Se bem que tenho aprendido muito com eles ultimamente. Tenho alunos adolescentes que são excelentes grafiteiros, rappers, skatistas, quadrinhistas.  É uma nova geração atenta às novas tecnologias e novas performances urbanas. 

 

Sua produção artística não se restringe exclusivamente aos quadrinhos. Por favor comente um pouco sobre seus projetos além das HQs.

Tive oportunidade de participar de algumas bandas de rock, tanto nas décadas de 1980 e 1990. Mas foram apenas para circular pela cena musical do underground mesmo. Nunca tive nenhum talento para a música. Também realizei alguns vídeos, clipes para algumas bandas de amigo e três curtas-metragens inspirados nos meus quadrinhos da série “Cidade Cyber”. São apenas experiências. Honestamente sou um quadrinhista, as outras coisas são apenas aventuras artísticas.

 

Aos que estão tendo o primeiro contato com sua obra nesta entrevista, quais das suas publicações estão disponíveis e como adquirí-las?

Tenho alguns trabalhos postados no blog do Coletivo Setor 8 e também comecei a publicar na revista Peiote, de Minas Gerais, que pode ser adquirida através deste blog www.viajantejaum.blogspot.com. Em breve vou lançar um novo zine, com quadrinhos e arte inédita e recente (tudo criações de 2010) e distribuir através do blog da Fanzinoteca Mutação.
 

Final à moda Alta Fidelidade!

5 HQs insdispensáveis: Doom Patrol, The Invisibles (ambas roteirizadas por Grant Morrison), Salammbo – série do Druillet, Garagem Hermética – Moebius e Fogos – Mattotti.

5 filmes indispensáveis: Mad Max 2, Blade Runner, Liquid Sky, Jubilee e Future Kill.

5 discos indispensáveis: Psycho Candy – The Jesus And Mary Chain, Flaunt It – Sigue Sigue Sputnik, Burning from the Inside – Bauhaus, Acid Bath – Alien Sex Fiend e Floodland – Sisters Of Mercy

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3 Comentários leave one →
  1. 26/04/2010 15:51

    Muito bom…
    ótimo saber um pouco mais das experiências e vivências por detras dos enigmáticos rabiscos fullcolor.
    uma influencia.
    um suspiro fanzinante. resistencia sempre.

  2. 26/04/2010 22:10

    Igor, obrigado por nos visitar e pelo comentário.
    Muito boas as artes no seu blog também. Força!

Trackbacks

  1. Ugra Buga #1 «

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