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Lev Shestov

18/03/2010

Existencialista russo, cuja obra permanece inédita no Brasil, criticou a filosofia especulativa e pensou em Deus como absurdo.

 Texto: Leandro Marcio

 

“Shestov, de quem fiz reeditar As revelações da morte, quando fui nomeado, durante alguns meses, diretor de uma coleção na editora Plon, desempenhou papel importante na minha vida. Mantenho-me fiel a ele, apesar de não ter alcançado a felicidade de conhecê-lo pessoalmente. Ele pensava, com razão, que os verdadeiros problemas escapam aos filósofos. Que fazem eles a não ser escamotear os verdadeiros tormentos?”

 

Essas são as palavras de Cioran, em uma entrevista concedida à Sylvie Jaudeau, onde o autor romeno nos apresenta um nome que, desde sempre, foi relegado a um segundo plano no debate filosófico contemporâneo: o judeu russo Lev Isaakovich Schwarzmann, ou simplesmente Lev Shestov (1866-1938).  

Em Kiev, sua cidade natal, o jovem Shestov teve o privilégio de crescer em um seio familiar onde a literatura hebraica era amplamente lida e discutida – especialmente por seu pai, o rico comerciante têxtil Isaak Moiseevich Schwarzmann. A paixão pela literatura influenciou decisivamente seu itinerário intelectual e levou o pensamento de Shestov a confrontar os milenares problemas filosóficos de uma forma desconcertante para muitos de seus contemporâneos.

Apesar das afinidades com a literatura, Shestov ingressou na Faculdade de Matemática e logo depois na Faculdade de Direito de Moscou. Finaliza seus estudos em 1889, interessado por questões políticas e sociais. Voltando para o lar paterno, apresenta uma dissertação de mestrado na Universidade de Kiev sobre a legislação trabalhista russa. Apesar de aceita pela academia, o Comitê de Censura de Moscou, órgão que fiscalizava as publicações de toda e qualquer obra divulgada em território russo, alegou que o livro era “revolucionário”. Isso impediu que Shestov se tornasse de fato um advogado, e a falta de prática da profissão terminou por fazê-lo perder completamente as ligações com o Direito.

O interesse familiar em cultivar o espírito e as artes fazia da casa dos Schwarzmann em Kiev um ponto de encontro dos intelectuais da cidade. Estamos na última década do século XIX, época de efervescência política em toda a Rússia, e as articulações da vindoura revolução de 1917 estavam em gestação. Os debates eram inúmeros e Shestov assistiu a todos eles. Contudo, nunca tomou posições a favor ou contra os ímpetos revolucionários; talvez, desde aquele instante, tenha suspeitado de todas as ideologias de salvação, e visto nos rebentos do liberalismo nada mais do que falsas promessas de liberdade.

O livro que o consagra é lançado em 1903, com o título “Dostoiévski e Nietzsche: a filosofia da tragédia”. Já percebemos seus interesses congregando a literatura e a filosofia, mas ainda a exposição das idéias obedece ao gosto acadêmico por organização, hierarquia e argumentos expostos de modo sistemático. De qualquer modo, serviu como um ensaio para o próximo livro, The Apotheosis of Groundlessness (algo como “A Apoteose da Falta de Sentido”), que seria mais tarde lançado em inglês com um novo título, All Things Are Possible (nome pelo qual, aliás, esse livro é mais facilmente encontrado hoje em dia). Nesse livro, o estilo filosófico  de apresentação é deixado de lado, optando Shestov por uma escrita aforística, de parágrafos curtíssimos às vezes, mas sempre elegantes: nota-se nisso um ponto de contato não apenas com Nietzsche, que também cultivou o estilo, mas especialmente Cioran, onde a assistemacidade e a negação da filosofia são levadas ao máximo.

Mas não se trata de uma questão puramente de estilo: The Apotheosis of Groundlessness é também um violento ataque aos “deuses” da modernidade – a Ciência, a Tecnologia, o Progresso, a Razão. Como demônios da mentira, tais ídolos modernos, segundo Shestov, não trazem e jamais trarão aos homens a liberdade tão prometida. Pelo contrário: estamos condenados ao seu despotismo sem limites, que nos torna insensíveis para os aspectos inexplicáveis e singulares da vida humana. Em um universo sem Deus, a ânsia por “conhecimento” torna-se o nosso maior e definitivo pecado. Não é preciso dizer que um livro assim não foi bem acolhido pela crítica.

Durante a Primeira Guerra, muda-se de Kiev para Moscou com a esposa e os filhos. Em 1919 termina Potestas Clavium, que permanecerá impublicado: não aceita a determinação bolchevique que impunha a todas as obras uma primeira página defendendo a doutrina marxista. Com o gradativo endurecimento do regime foge para Paris com sua família, em 1920. Na Cidade Luz, vive sem nenhum contato com os intelectuais. Porém, em 1921 escreve um artigo comemorativo aos 100 anos do nascimento de Dostoiévski. A repercussão foi excelente, e o colocou em contato com Lucien Luvy-Bruhl, editor da Revue Philosofique, que o convida para ser um de seus colaboradores.

Sem dúvida alguma, foi essa colaboração com a Revue Philosofique que lhe rendeu a oportunidade de, em 1926, ser nomeado presidente honorário da German Nietzsche-Gesellschaft. A nomeação proporcionou a Shestov a realização de leituras e encontros em Berlin, Halle e Freiburg, além de visitas a Cracóvia, Praga e Amsterdã. Sua vida intelectual floresce, novos livros são publicados e sua implacavável escritura antimoderna vai tomando a forma da maturidade. Nesse momento de sua carreira alguns existencialistas se voltaram para seus escritos, entre os quais Camus, que escreveu sobre Shestov em “O Mito de Sísifo”:

  

“Nenhum dos fatos irônicos ou ridículas contradições que depreciam a razão escapam a ele. Apenas uma coisa o interessa, e é a exceção, seja no domínio do coração ou da mente. Através das experiências dostoiveskianas do homem condenado, das exacerbadas aventuras da mente nietzscheana, das maldições de Hamlet ou da amarga aristocracia de Ibsen, ele persegue, ilumina e magnifica a revolta humana contra o Irremediável.”

 

Em 1936 visita Jerusalém, onde seu pai estava enterrado. A experiência foi definitiva para Shestov, e os reflexos dela forneceram o material para sua obra definitiva: “Athens and Jerusalem”, lançado em 1937, um ano antes de sua morte. Nessa obra, Shestov caracteriza Atenas, berço da filosofia e da civilização ocidental, como a cidade do triunfo da Razão e do Cientificismo; em oposição a ela, Jerusalém, a cidade espiritual que viu a encarnação do Deus Vivo. Atenas também é a cidade da Queda, tema que obssessivamente Shestov perseguiu durante toda a sua vida e que, igualmente, seduziu a Cioran: para ele, o mito de Adão representava a opção do homem em trocar a Fé pelo Conhecimento. Comendo o fruto da Árvore da Ciência, pecado que todos os homens repetem sem cessar, abre-se mão da liberdade primordial pela angústia da Consciência e da Razão.

Para Shestov – e igualmente para Cioran, nesse sentido seu “discípulo”– não há possibilidade de boas relações entre Atenas e Jerusalém. Como cristalizações de modos de se posicionar perante a existência, são excludentes; a Harmonia não encontra significados compartilhados em suas línguas, incompreensíveis entre si. A filosofia, longe de conduzir o homem ao conhecimento da Verdade, nada mais faz do que pegá-lo pela mão e levá-lo através de um caminho de mentiras, de conhecimentos falsos, de pretensões seculares; concede facilidades ao espírito e apenas isso, através daquilo que Shestov denomima verdades autoevidentes (o sistema hegeliano, os fatos positivistas). Já a Fé, produto de Jerusalém, exige muito mais – a disposição para crer, para simplesmente acreditar em algo que não se pode provar por leis racionais exige do homem, segundo Shestov, uma audácia que os modernos já não mais possuem, incapazes que estão de vislumbrar qualquer elemento que não se encaixe na lógica racional.

E aqui justamente está o principal mote de Athens and Jersusalem: acreditar é tão sem sentido que Deus só pode ser crível se experimentado como um absurdo. Escapa aos julgamentos, escapa até mesmo à linguagem. A vida em si se torna uma experiência que não se limita às categorias racionais; o cotidiano repetir de eventos, apenas um tedioso movimento. Tal proposição parece ter graus de parentesco muito próximos com, mais uma vez, Cioran e sua problemática relação com Deus. Ambos compartilham o mesmo mal estar perante as “novidades” modernas, ambos acusam a filosofia de ser uma ferramenta ridícula para a solução das tragédias humanas. Lê-los é um convite para a dissolução das certezas que cegam.

P.S.: não há livros de Shestov editados no Brasil. Aos que se interessarem pela obra do pensador russo, restam as traduções para o inglês ou francês.

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12 Comentários leave one →
  1. Leo permalink
    18/03/2010 14:12

    O nome “All Things Are Possible” é referência a frase do Dostoiévski?

    Sempre me agrada a idéia que se opõe a razão como uma forma de novo Deus. Uma pena que nada foi lançado por aqui.

    • 18/03/2010 15:36

      E aê Léo,

      Sim, é uma referência. Shestov amava as obras do Dosto, os personagens problemáticos e tudo o mais.

  2. semcp permalink
    20/03/2010 18:59

    Muito boa dica, não conhecia. É engraçado que até hoje essas poucas tentativas legítimas de derrubar nossa mania racionalista de tentar subsumir todos os conteúdos do mundo à categoria da razão (Heidegger, Bakhtin, Cioran, agora Shestov) ainda hoje ficam relegadas à parte de ‘curiosidades’ de seções de filosofia, quando não fica como algo que só a literatura acaba tendo coragem e meios de confrontar. O que dá uma ilusão do que acontece no campo da estética e emotividade não tem correlação direta com o funcionamento do mundo e da mente, o que é falso.
    Ainda faltam meios de integrar essas críticas mais ‘marginais’ dentro do corpus e da auto-compreensão da filosofia.
    Valeu,

    Jakob

  3. glurp permalink
    21/03/2010 08:21

    Esse lance do “Deus Absurdo” lembra bastante do lance do Eckhart em dizer que Deus = Nada (já que foje do que pode ser conceituado, ou colocado como coisa), ou to viajando alto?

  4. 24/03/2010 10:57

    Agostinho disse : “Creio porque é absurdo” , Camus: “Quando o homem absurdo contempla seus tormentos faz calar todos ídolos” , é muito interessante o fato de como o absurdo é tratado na história da filosofia, das mais diferentes formas

    Abração.

  5. 24/03/2010 15:15

    Jakob,

    Corrija-me se eu estiver errado: considerar a crítica às supertições racionalistas como uma curiosidade filosófica é obra da preponderância de tendências de esquerda na academia, cujos pressupostos são materialistas? Baseio-me tão somente no meu conhecimento para perguntar isso, e no exemplo da crítica literária brasileira que, via de regra, debruçou-se em escritores de cunho social com mais ênfase, deixando de lado autores com propostas mais “filosóficas” – mas não por isso menos instigantes. Como exemplo, cito Graciliano Ramos como representanta do primeiro grupo, e Lúcio Cardoso do segundo.

    Glurp,
    Sim, Shestov parece concordar com Eckhart nesse ponto. Para ele, Deus, por não se encaixar em categorias racionais, só é experimentado como absurdo, como nada.

    abraços

  6. Leo permalink
    26/03/2010 16:41

    Tenho uma dúvida tanto sobre o Shestov como pelo que foi discutido. Pesquisei mais algumas coisas sobre os autores para saná-la mas ainda assim ela persiste (lembrando que a pergunta é de um curioso, imagino que possa ser uma questão básica no meio acadêmico):

    Além do que já foi dito sobre os pressupostos materialistas da filosofia acadêmica, a falta de uma teoria concisa e de possíveis respostas sobre problemas filosóficos – visto que, pelo menos em Cioran temos uma tendência ao paradoxal – poderiam incluir tanto o Shestov como Cioran no grupo daqueles que, ao invés de soluções, geram mais problemas para a filosofia? Minha dúvida é: A postura antifilosófica, a falta de um sistema, o fatalismo, não acabam por servir de suporte para a marginalização desses pensadores?

    Sobre a comparação Graciliano x Lúcio Cardoso: Do pouco que pude conhecer por intermédio do Le, o Lúcio não guarda algumas similaridades – não em forma, mas em conteúdo – com o Dostoiévski ? Acredito que isso seja uma discussão mais ampla, mas se sim, ficamos reduzidos ao universo da crítica brasileira, não tornando a preferência uma regra em outras esferas, estou errado?

  7. 27/03/2010 15:16

    Acredito que sim, Léo: a ausência do “rigor” epistemológico, a clara tendência à negação ao pensamento científico coloca os dois autores no limbo.

    Por aqui, no Brasil, há um escritor chamado Rossano Pecoraro, da PUC Rio de Janeiro, que escreveu um livro sobre Cioran, infelizmente esgotado. Ele é o único que conheço que trabalhou com Cioran no meio acadêmico, em uma tentativa de prestigiar o pensamento do velho romeno. Se há outros, não sei dizer.

    Sim, Lúcio Cardoso tem similaridades significativas com Dostoiévski. Principalmente na densidade das análises psicológicas. E olhe só: Dosto escreveu “Memórias do subsolo”, e Cardoso um outro chamado “A luz do subsolo”, ambos com personagens esféricos, plenos de contradições e problemas interiores. A crítica brasileira em geral preferiu os autores cujos trabalhos tinham tendências mais sociais -Clarice Lispector é a que mais se distancia dessa tendência e contudo obteve uma atenção considerável. E quando lemos crítica literária brasileira, temos que considerar o enorme peso da USP (ou mais especificamente, da FFLCH) na formação dessa crítica (figurões como Bosi e Antônio Cândido). Não se trata de desmerecer essa crítica mas em vê-la como muito influenciada pelo pensamento marxista. Ora, Lúcio Cardoso era declaradamente católico. E isso, para um militante comunista da época (até hoje, na real) era visto como um atestado de burrice, enquanto que a carteirinha do PC do B era o da inteligência. Nem preciso dizer o quão lamentável é isso.

    Quando você diz “não tornando a preferência uma regra em outras esferas”, você se refere à atenção dada à literatura brasileira no exterior? Se for isso, pode-se dizer que salvo Machado de Assis, Jorge Amado e (claro) Paulo Coelho, os demais autores brasileiros são ilustres desconhecidos. Da mesma forma também que não conhecemos os grandes autores da Indonésia, ou da Lituânia, por exemplo.

  8. Leo permalink
    29/03/2010 10:47

    Na verdade falava sobre a atenção que os escritos do Dostô receberam mesmo sendo dessa linha. Mas é meter pés pelas mãos querer comparar desse jeito as duas figuras. Quase 100 anos separam os dois, épocas diferentes, histórias de vida diferentes, tempo de assimilação idem. Deixa pra lá.

    Ah, esse blog é foda 😉

  9. Precisopensar permalink
    11/04/2010 10:17

    Gostei bastante da entrevista sobre Cioran. Autor que, como foi dito, mereceria mais atenção e respeito. Ugra: o livro do Rossano Pecoraro pelo que sei não está esgotado; é só pedir à editora de Poa que entregam via correio. Realmente, o livro merece uma lida. O Rossano é um jovem filósofo, (não escritor, ao menos não somente) estudou na Itália e fez pós na PUC. Acho que agora saiu de lá. Assisti a uma palestra dele há algum tempo; o cara é interessante, tem os seus argumentos.
    Abração.

  10. tiago l. garcia permalink
    31/10/2010 13:29

    Pecoraro não foi o único a trabalhar com Cioran no meio acadêmico (urgh…) não! Temos José Thomaz Brum tradutor, prefaciador, e amigo de Cioran. O Piva (Paulo Jonas de Lima) que escrveu sobre Nietzsche e Cioran. Eu apresentei um texto patético na USP sobre Cioran e Saint John Perse…melhor que nada! haha

    Escevi na faculdade um texto sobre o amor em Shestov (ou Chestov). Ou sobre o amor e o ácido sulfúrico. Um dos aforismos de Chestov clamava os leitores a pensarem se seu amor por suas amadas permaneceria após as faces destas serem desfiguradas por ‘vitriol’. E , de fato, no fim das contas, Chestov responde que sim…afinal H2O pode ser Sinfonia.

  11. Inocencio permalink
    12/04/2014 15:06

    Ugra,

    Existe um livro organizado por Deyve Redyson que traz vários autores brasileiros que falam das obras do grandioso Cioran. Se não me engano, o livro foi publicado em 2011 (após as mensagens que aqui estou lendo), mas vale a pena lê-lo.

    No mais gostei do blog, já que eu estava procurando algum material acerca do pensamento de Shestov e me deparei aqui, sou um neófito na filosofia/pensamento de Shestov que é tão escasso de material.

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