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Última entrevista antes da perdição

11/03/2010

Em entrevista inédita realizada pouco antes de seu suicídio em 2001, Fukked Up Mad Max, o amável ex-vocalista do lendário Worship, fala sobre seus projetos e sobre misantropia.

Texto: Douglas Utescher

Beer Vomit era o projeto noisecore do Sr. Maximilien Varnier, também conhecido como Mad Maxxx ou Fucked-up Mad Max, mentor de uma das mais cultuadas bandas da cena funeral doom: o Worship.

Em sua curta existência (1999-2000), gravaram apenas 2 demos e uma split tape. Nunca tiveram uma formação estável, sendo Max o único membro permanente.

Quem conhece o Worship irá notar com facilidade que o Beer Vomit é seu extremo oposto. O que a primeira tem de introspectiva e depressiva, a segunda tem de fanfarrona e escrachada. Em comum, apenas a atitude anti-comercial apaixonada e intransigente que tão bem caracterizava o underground extremo na década de 90, e que o Max fazia questão de enaltecer em todos seus inúmeros projetos.

E, acreditem, “inúmeros” não é exagero algum. Além de todas as bandas em que tocava (6, ao todo), ele era o responsável pelo selo Impaler of Trendies, editava os zines Ocean Morphique e The Crown of Death e colaborava com o Doom mooD, zine editado pelo seu parceiro no Worship, Daniel.

Max era, sem dúvidas, um poço de contradições. A mais notável delas era que o nível de misantropia sugerido em seus projetos e entrevistas se provava diretamente proporcional à atenção, dedicação, idealismo e cordialidade que ele tinha com seus colegas de underground. Daniel Pharos, a outra metade do Worship, em entrevista ao site Heathen Harvest, definiu assim a figura: “Max era profundamente deprimido, muito engraçado, extremamente odioso e amplamente respeitoso com seus amigos. Ele era um saco cheio de emoções conflitantes lutando para explodir. Ele nunca era tedioso!”

A entrevista que segue foi feita por e-mail no início de 2000, e deveria ter sido publicada em uma das incontáveis tentativas de fanzine que planejei meticulosamente e nunca concretizei. Pouco tempo depois, em meio às correrias cotidianas, perdi contato com o Max. Em julho de 2001, durante uma viagem ao Canadá, ele cometeu suicídio, contrariando o que havia respondido meses antes nesta entrevista.

Completa esse post a rara demo “Vomis ta bière et tais-toi”, do Beer Vomit. Se você gosta de noise-grind old school na linha do Meat Shits e Minch, pode fazer o download sem medo. Scans em boa resolução do encarte serão encontrados no arquivo. Minha cópia da fita é a de número 194 de 792 cópias. Baixe tudo aqui.

 

 

Olá, Max! Por favor conte-nos brevemente a história do Beer Vomit.

Max – Olá, amigo! Fucked-Up Max aqui! Como vai você? Bem, não há realmente uma história… Eu apenas falei com um amigo e decidi fazer este projeto com ele…A princípio nós deveríamos ser em três, mas bem… De qualquer maneira, isto era para ser sério em um primeiro momento, mas acabou se tornando um estúpido grind/noize à maneira francesa, com realmente muita violência insana, bestial, louca e caótica!!! Após ter mudado a formação para cada nova gravação, nós gravamos uma nova sessão a cada duas semanas usualmente! Eu já tive algo em torno de 8 guitarristas. Nós agora temos uma formação completa para apresentações ao vivo, mas eu continuarei gravando sessões com novos membros a todo tempo! Beer Vomit é apenas eu e uma tonelada de outros músicos… não é nada realmente sério! Nós nunca ensaiamos ou escrevemos músicas! É pura improvisação com riffs punks, grind, death e noise! Nada de letras! Apenas 5 ou 6 músicas têm letras na primeira demo “Vomis ta bière et tais-toi” ! MORTE À MÚSICA! NOIZE NOIZE NOIZE!!!

Você também está tocando em outras bandas, certo? Por favor apresente-nos a elas.

Eu também tenho o Worship, veja informações sobre ela mais adiante. Eu tenho o Laceration, que é dark/death old scholl como Autopsy, Nihilist, Dismember, Incantation, o antigo Grave, o antigo Unleashed, Immolation, Abhorrence, Absurd (EUA), Macabre etc… Eu tenho o Mountain of Misanthropy, uma mistura de dark metal, black/doom e black metal crú… algo realmente devagar, frio e torturado! Eu tenho o Kult que é mórbido e bestial black/death/noize! E o Raw, que é explosão grindcore bestial… Raw, Laceration e M.O.M. devem gravar suas demo tapes dentro em breve, eu espero! Kult tem um ensaio, mas está esgotado, deverá haver uma 3 way tape em breve… Metal até a morte!!!!

O Beer Vomit é majoritariamente “barulho e diversão”, Worship é pura depressão e densidade. Com qual projeto você se identifica mais – o divertido ou o sério?

Bem, eu sempre me sinto embaraçado respondendo questões sobre o Beer Vomit, porque esta banda não me representa, ou me representa apenas em breves momentos da minha vida. Eu creio que o Worship representa melhor a mim e as minhas idéias. Eu não sou um tipo de cara divertido, mesmo que eu pareça um. Eu estou normalmente triste e deprimido, estou quase sempre doente e com a cabeça fodida… eu sou torturado! É por isso que eu acho que o Beer Vomit irá parar em breve. Bem, nós temos algo em torno de 20 split tapes planejadas, um split CD… Eu acho que iremos lançar tudo isso, fazer algumas gigs, um split EP e então pararemos. Não há necessidade de prosseguirmos! Eu irei me concentrar no meu projeto grindkore niilista e bestial: Raw! Isso é mais interessante para mim, ao menos será um pouco construtivo! Mas tocar noisecore é sempre ótimo, essa fodida violência caótica, eu amo isso! É apenas esse lance “divertido” que eu já não gosto mais…

Nas músicas e na arte da fita “Last Tape Before Doomsday” do Worship, há um monte de coisas relacionadas à lua. Porque toda essa fascinação pela lua? Você gostaria de ser um astronauta?

Não, mas eu adoraria ser um ginecologista, ou um barman ou um ditador chileno de 70 anos!!! Hehehe, essas profissões são muito melhores, sem dúvida! Bem, a lua representa tristeza, escuridão, desolação… Eu também acho-a muito bonita e, além disso, eu sempre preferi a noite ao dia… Eu vivo a maior parte da minha vida à noite, então…. Propaganda da escuridão!!!!

Há um texto na demo do Worship que diz “Nós veneramos a natureza e a morte por serem as únicas coisas superiores a nós”. Na música “Worship”, há um verso que diz “Como poderíamos esquecer a dor que causamos à natureza”? Considerando essa atitude de culto à natureza, o que você pensa a respeito de assuntos como liberação animal e vegetarianismo?

Natureza é algo importante para mim, eu a amo! Eu amo me comunicar com ela e respeitá-la. Eu não sou vegetariano, eu como carne, amo carne e continuarei comendo carne! Não há problemas em comer carne, depende apenas do que você come… Daniel, o outro membro do Worship, é vegetariano e eu realmente respeito sua opinião. É ótimo – ele não apenas fala, ele AGE! Ele nunca irá tentar te forçar a ser vegetariano, ele faz isso por si mesmo e por suas próprias idéias! Sobre liberação animal, é ok para mim… Mas, bem, todas essas coisas são utópicas. A humanidade nunca irá mudar, os humanos continuarão sempre sendo os cuzões estúpidos que sempre foram. Mas aqueles que lutam por suas idéias terão sempre meu respeito. Lutem até a morte!

É fácil discernir um sentimento misantrópico latente nas letras do Worship. O que você de fato pensa sobre o Homem? Qual sua visão sobre suicídio? Alguma vez você já tentou se matar?

O Worship e todas minhas outras bandas são sem dúvida totalmente misantrópicas! Apenas veja o Beer Vomit: se ele é totalmente imbecil, estúpido e um lixo, é justamente por ser um reflexo do lixo que é nossa sociedade. Eu não tenho respeito pela raça humana e encorajo TUDO o que possa destruí-la: drogas pesadas, racismo, fascismo, guerras, genocídio, doenças, alcoolismo, brigas, excessos da polícia, fome, etc… niilismo é o que há em minha mente… Quando a raça humana morrer o planeta Terra finalmente estará livre. Finalmente!! De certa maneira, eu encorajo até mesmo a poluição. Se você pensar, com a poluição o homem matará apenas a si mesmo, a natureza sempre será mais forte, e ao final apenas ela restará.

Não, eu ainda nunca tentei me matar. Muitas vezes eu penso sobre isso, mas eu sou um grande covarde… e ao menos ver a humanidade morrer lentamente me dá um grande prazer!!! De qualquer forma, eu me destruo com abuso extremo de álcool, drogas e auto-mutilação. Eu não acredito que irei me manter por muito tempo neste planeta… mas quem se importa? Eu não! DOOM YOUR LIFE!

Você também mantém um selo/distribuidora chamado Impaler of Trendies. Em todos os seus lançamentos você escreve slogans como “esmague o profissionalismo”, “sem copyrights” e “foda-se o comercialismo”, que são palavras normalmente utilizadas por selos da cena punk/hardcore devido às suas óbvias conotações anti-capitalistas. Você não acha que a cena de metal extremo se tornou um grande negócio com todos esses selos grandes como Relapse, Nuclear Blast, Earache e outros? Por que você se interessa tanto pela ética do “faça-você-mesmo”?

Faça-você-mesmo representa o que é realmente o underground. Amizade, cooperação, estar nisso pela música e não pelo dinheiro ou pela fama, etc… Eu sei que essas ideias estão distantes das minhas crenças misantrópicas, mas o underground é o único lugar onde me sinto bem. Bem, é verdade que ele também está cheio de hipócritas, ladrões, “freaks” de final de semana… mas algumas pessoas valem a pena, eu acho.

Sim, selos grandes como esses que você citou transformam a cena em uma moda de merda ao assinar com seu lixo comercial. Mas nem toda a cena é assim! Eu não ligo para essas fracas bandas poser. Eu tenho a minha cena de metal extremo, que é feita por maníacos realmente dedicados ao underground e é isso que eu gosto: extremo metal underground! O resto poder se foder e morrer. Uma vez mais, morra escória humana!

Além das bandas e da Impaler of Trendies Productions, você está também fazendo dois zines. Fale um pouco sobre eles.

Eu fiz 4 edições do Ocean Morphique, mas ele agora é uma newsletter. Meu zine agora é o The Crown of Death. Ele é impresso profissionalmente em tiragem de 1000 cópias, mas ainda completamente underground. A primeira edição será lançada em breve com entrevistas com Lust, Bestial Mockery, Rot, Agathocles, Incantation, Vomitor, Sadistik Execution, Pentacle, Gospel of the Horns, Mournful Congregation, Katharsis, Woods of Belial, Blasphemous Evil, Thergothon e toneladas de outras, mais cerca de 400 resenhas, artigos, etc… um zine totalmente fodido e doentio. Eu também colaboro com o Doom mooD zine! Nós devemos lançar a primeira edição em breve, eu espero. Eu o edito junto com meu amigo Daniel, do Worship. Será um bom zine , eu imagino.

Eu imagino que você dedique boa parte do seu tempo às suas atividades no underground. Você também trabalha ou estuda? É possível ganhar algum dinheiro com sua revista ou com o selo?

Se eu ganho algum dinheiro? HAHAHAHA! Essa é uma pergunta engraçada! Eu perco todo meu dinheiro com minhas atividades no underground! Mas eu estou pouco me fodendo. Eu não estou fazendo isso por dinheiro e nunca farei. Sim, eu trabalho, 8 horas por dia! Mas é um bom trabalho. Eu posso copiar minhas fitas e responder minha correspondência no trabalho… Underground é praticamente toda minha vida, então… Eu vou começar a lançar CD e vinil em breve, mas nunca deixarei de lançar fitas, porque elas são totalmente cult para mim!! Elas representam o verdadeiro underground pequeno, escuro e imundo.

Bem, amigo, isso é tudo. Obrigado pela atenção! A palavra é sua.

Bem, muito obrigado por seu interesse e apoio, amigo! Isso é muito bem vindo! É um grande prazer para mim responder para um zine brasileiro. Muitas grandes bandas vêm da sua terra: Sarcófago (godzz), Rot, No Prejudice, Krisiun, Sex Trash, Flesh Grinder, Vulcano, Holocausto, o antigo Sepultura, Goatpenis, etc…

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12 Comentários leave one →
  1. 11/03/2010 14:32

    Animal essa entrevista, bitcho. A visão de “underground” do Max parecia ser bem foda, hehe. Pena que o desgraçado se matou e o Worship fez a pachorra de voltar, ainda por cima.

  2. 11/03/2010 18:30

    Uma visão sobre o underground que deveria ser injetada na veia de muita gente por aí, eu diria.

  3. 11/03/2010 18:50

    Muito bom.

  4. 11/03/2010 20:42

    Por coincidência hoje estava procurando videos de velhas bandas de noisecore no youtube.
    não que eu seja velho…

  5. 13/03/2010 03:13

    Valeu por disponibilizar a demo do Beer Vomit. Ando procurando coisas assim. É interessante ter essa visão de underground vinda de um misantropo, pra mim faz parecer mais sincera. Sei lá…

  6. Guilherme permalink
    17/03/2010 20:32

    NOISE LIFESTYLE Never Mind The Napalm Here’s Sore Throat

  7. Guilherme permalink
    17/03/2010 20:43

    NOISE LIFESTYLE Never Mind The Nasum Here’s Necroner

  8. Rodrigo Romanin permalink
    19/03/2010 21:50

    Bela entrevista, nem sabia que o max fazia parte do BEer Vomit…tenho duas split tapes deles e é noisecore escrachado mesmo…já o Worship é bárbaro…tenho o last tape before the doomsday original…vou uppar as split tapes…deppis mando os links

  9. 28/12/2010 21:33

    Já tinha visto essa entrevista no fórum do Worship, foi uma grande surpresa vê-la num blog em português!
    Ouço bandas comerciais dos grandes selos como Earache e Nuclear Blast, mas admiro mesmo a cena underground e o Max foi um autêntico representante desse movimento, ah se ele soubesse a falta que faz.

    De qualquer forma discordo do camarada que não aprovou a volta do Worship, o Daniel escreveu todas as músicas e metade das letras, é um direito dele dar continuidade ao Worship.
    Worship é minha banda favorita, Max pra mim foi o melhor vocalista que já existiu, mesmo se comparado aos vocalistas de Death Metal, e o Daniel continua fazendo um ótimo trabalho.

    Parabéns ao blog.

    Kill yourself and Worship.

  10. aske severak permalink
    27/09/2012 03:47

    a
    chei fudido o fato dele ter se matado sou a favor do anti-human foi a melhor escolha

  11. aske severak permalink
    27/09/2012 03:49

    esse mundo é uma merda e o undergroud e o melhor lugar para se estar não a preço

  12. Ana permalink
    17/09/2013 23:01

    o que tem ai dele? Qualquer coisa 😦

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