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Projeto Luxúria: uma festa dedicada ao fetiche

04/03/2010

O Luxúria é uma festa idealizada pelo estilista Heitor Werneck. Ocorre todo primeiro sábado do mês. Tendo como objetivo ser um ponto de encontro para fetichistas, as festas são regadas a EBM, performances eróticas e vestimentas extravagantes. Fomos à última edição da festa e aqui estão algumas impressões. 

 


Texto: Leandro Marcio / Fotos: Thiago Marzano

 

 No coração da Vila Madalena, tradicional bairro hippie-boêmio de São Paulo, uma festa dedicada ao fetiche: isso pode parecer contraditório, mas São Paulo é uma cidade de contrastes. O nome da festa é Luxúria, e sua proposta é explorar o lado estético do fetiche mediante performances, músicas e exibições diversas. E como a estética está no DNA da festa, só se entra no Luxúria mediante trajes adequados. A regra é simples: quanto mais produção, menor o valor da entrada. Látex, couro e vestimentas originais pagam R$ 35,00: como os organizadores dizem no site, incentiva-se “fortemente a individualidade e a imaginação”. Roupas inteiramente pretas, R$ 40,00. A restrição ao jeans, porém, é pesada: R$ 150,00 se você fizer questão de entrar com sua Levis 501.

O que pode parecer forçado é compreensível: muitos são os que passam na frente do Luxúria e ficam com olhos estupefatos observando as pessoas que esperam para entrar. Dessa forma os curiosos são mantidos relativamente à distância. E funciona: ao entrar na festa, logo encontrei um cara usando uma máscara de gás, garotas de 90 kg apenas com calcinhas minúsculas, cross dressers e muitas outras pessoas interessantes. É necessário que eu liste alguns “personagens” curiosos daquela noite: 

 – o “homem tapete”: vestido totalmente de negro, era comum vê-lo deitado no chão pedindo para que garotas próximas subissem nele com seus saltos de diferentes tamanhos e espessuras. As pisadas ocorriam principalmente nas costas, mas também ocorriam nas coxas, barriga, peito e cabeça; 

– casal de 40 e poucos: pelo menos 30% do público do Luxúria aparenta ter entre 30 e 40 anos. Nesse grupo, destacava-se um casal composto por um homem usando chapéu Panamá, máscara veneziana e uma corrente que saía de seu pescoço e ligava-o ao pescoço de sua mulher, que usava espartilho negro, calcinha vermelha e saltos enormes; 

– o jovem casal oriental: vestiam-se elegantemente, com a mulher puxando o japonês por uma coleira de um lado para o outro. Eram magníficos. Mesmo após ler Suehiro Maruo não é com pouca estranheza que vemos orientais em situações como a do jovem casal, ainda mais com a mulher em um papel dominante. De longe, os personagens mais interessantes da noite. 

Quaisquer que sejam as motivações das pessoas que freqüentam o Luxúria –vivência autêntica de fantasias e fetiches para uns, deslumbre exibicionista e vazio para outros– ela ainda é uma festa singular. Pólo aglutinador de pessoas interessadas em pensar suas sexualidades para além das coordenadas do “normal”, coloca no campo da experiência um pensamento de Roland Barthes: 

  

“Imaginemos uma sociedade sem linguagem; eis que um homem nela copula com uma mulher, a tergo, misturando à sua ação um pouco de pasta de trigo. Nesse nível, não há nenhuma perversão” (do livro Sade, Fourier, Loyola. São Paulo, Martins Fontes, 2005)

 

Perversão/fetiche: fenômeno antes de tudo discursivo. Pode parecer ilusório considerar algo tão corporal como sendo do domínio do texto, mas um rápido olhar sobre as noções de perversão, fetiche, etc nos mostra que práticas perversas ocorrem desde sempre, mas suas nomenclaturas se alteraram – e é nessa alteridade que se formaram os conceitos do que é perversão.  A sodomia foi considerada uma perversão pela American Psychiatric Association até 1974; hoje, vídeos de sexo anal são os campeões de venda. Fortunas são construídas com o que antes era considerada uma doença.

Falando de modo mais específico, naquele espaço/tempo em que ocorre o Luxúria há como que uma desconstrução. Invertem-se, mesmo que por momentos e de forma algo disciplinada (exigências de roupas, restrição ao ato sexual etc) as noções claras sobre o que é normal e o que é vício. O que é o “ficar com alguém” em um ambiente onde o látex e as amarras de repente se tornam comuns? Um beijo entre desconhecidos não significa nada quando pessoas que acabaram de se conhecer trocam carícias e permitem mutuamente que respingos de velas derretidas sejam derramadas sobre seus corpos seminus. Mais que isso: tais práticas  são como desafios para nossas concepções sobre o que é permitido entre duas pessoas. O prazer, o deleite, a dor: esses conceitos, frente a “personagens” como o “homem tapete” ou o jovem casal de orientais, precisam ser revistos. A linguagem é o juiz que, segundo Barthes, define os campos da normalidade e da perversão. Mas como o mestre Foucault havia percebido (sim, ele é um mestre), na linguagem há também instâncias de poder que se manifestam em: 

  

“uma relação ambígua, reversível, que luta belicosamente por controle, dominação e vitória” (da “A casa dos loucos”, Microfísica do Poder. Rio de Janeiro, Graal, 1979). 

  

O Luxúria coloca no campo de combate noções ossificadas sobre a sexualidade humana.  Mas a vitória estaria nas mãos de Julliete, ou de uma Justine sedenta de espetáculo? Talvez ambas tenham participação nisso: desde o começo, trata-se de uma festa que pretende explorar o fetiche como fenômeno estético. É difícil (e até de certo ponto de vista ridículo) julgar se as pessoas no Luxúria estão ali vivenciando algo autêntico ou sendo algo que elas não de fato. De qualquer forma, com questões de sexualidade cada vez mais sendo alvo de debates, arrisco a dizer que se trata de uma festa necessária. Pode fazer com que as pessoas experimentem algo mais excitante da próxima vez que estiverem entre quatro paredes, indo um pouco mais fundo na exploração de seus próprios desejos e fantasias.

 

Evola explica

Outra pergunta suscitada pela visita ao Luxúria nos leva a um campo mais interessante da discussão: a sexualidade exposta/incentivada pelos freqüentadores do Luxúria, sexualidade que guarda um enorme parentesco com a dor, qual é a sua origem? Na tentativa de ir além da análise disciplinar e moral, apelo para o livro “Metafísica do Sexo”, de Julius Evola, obra em que o pensador italiano apresenta sua visão a respeito da sexualidade humana, opondo-se às teses freudianas e mostrando o ato sexual como uma experiência física que possui muitos significados espirituais. 

Spectarunt nuptas hic se Mors atque Voluptas – unus uultus fame erat (fitaram-se a Morte e a Voluptuosidade, e os seus dois rostos tornaram-se um só): a inscrição romana citada por Gabriele D´Annunzio em Vergini delle Rocie atesta que desde a Antigüidade os homens conheciam a relação constante entre sexualidade e dor. Nos panteões das civilizações antigas há muitos exemplos de divindades que eram ao mesmo tempo patronas do sexo e da morte (por exemplo Vênus, cujo templo em Roma ficava ao lado do bosque de Libitina, a deusa da morte, ou Hathor, para os egípcios a deusa do amor, que também atendia pelo nome de Sekhmet, divindade da morte). 

São indícios interessantes, mas que ainda nos deixam nas fronteiras mais remotas da complexa relação que aqui pretendemos investigar. É necessário um passo além e, para isso, cito Evola: 

  

“Quaisquer que sejam as causas, a dor é, do ponto de vista interno, a forma através da qual a consciência do indivíduo experimenta algo de caráter mais ou menos destrutivo, mas que, por isso mesmo, contém um fator de transcendência relativamente à unidade fechada e fixa do indivíduo finito; por esse motivo, e em certa medida, é verdadeira a afirmação de Wordsworth de que o sofrimento tem a natureza do infinito.” 

  

Essa natureza do infinito coloca o ser em um campo da experiência por vezes de difícil descrição. Aqueles que experimentaram mordidas, arranhões, tapas, enforcamentos e outras “diversões” em um contexto erótico sabem disso: as lembranças de tais momentos em geral são confusas e apenas relatadas com informações cruas. E esse turbilhão de sensações promove uma alquimia interessante: a dor, sentida como prazer, deixa de ser dor. Experimenta-se prazerosamente cada gemido, cada vermelho de pele, cada nova marca deixada no corpo do outro. E longe de representar um “desvio” da “normalidade” tão ferrenhamente defendida pelos puritanos de todas as épocas, esse aspecto violento é inerente à sexualidade humana: diferente de Freud, que vê a sexualidade humana fendida entre Eros e Tânatos, em uma oposição dor versus desejo, para Evola o Eros existe por si, uma única potência que atua nos corações humanos sendo, ao mesmo tempo, dor e desejo.  O ato sexual possui uma inegável dimensão de violência, presente até em suas modalidades mais pudicas, e mesmo a linguagem dos apaixonados é repleta de expressões que relacionam o desejo com sofrimento e morte (“morro de amor por você”, “estou morrendo de saudades”, etc). 

Entender a sexualidade humana pela ótica de Evola me parece mais apropriado, pois se distancia daquela velha proposição de ver o humano como diversas partes separadas em conflito, bem ao gosto do pensamento cartesiano-positivista. Esquartejar o humano em categorias só se justifica por facilidades de exposição. Entender o impulso erótico como dor e desejo em um só e mesmo momento é extremamente útil para ver nas manifestações sadomasoquistas algo mais do que aspectos “doentios”. 

A regulamentação discursiva das práticas sexuais tenta dar um nome para aquilo que é experimentado na esperança de que o entendimento “limpe” o ato.  Mas a compreensão humana é falha, a experiência está muitas vezes além da linguagem e sempre existirão homens e mulheres que preferem sabores mais fortes entre quatro paredes. Vida longa a eles.

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8 Comentários leave one →
  1. 04/03/2010 13:25

    Interessante…

  2. Emilia permalink
    05/03/2010 01:58

  3. 05/03/2010 12:11

    As pessoas no Luxúria estão ali vivenciando algo autêntico.
    😉

  4. 05/03/2010 17:10

    Olá M.,

    Obrigado pelo comentário.

    Como eu disse, pode ser algo autêntico. Julgar se sim ou não é algo que não quis fazer, por me parecer algo sem sentido. No mais, é irrelevante: atento-me exclusivamente à proposta da festa, que permanece válida mesmo que todos os presentes estivessem mentindo, o que me parece improvável 😉

  5. anderson permalink
    28/08/2010 13:38

    gostaria muito deconhecer esse projeto porq tbm adoro ser DOMINADOR e de judiar muito de garotas safadas e mal-criadas.

  6. isabella permalink
    14/05/2011 21:32

    queria ser amarrada nua

  7. suzy hanson permalink
    29/11/2011 20:09

    eu tenho curiosidade,e tenho vontade de dominar amooooooo.

  8. Mariana permalink
    17/03/2012 11:28

    Adorei eu ia judiar muito dos homens.

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