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Entrevista: Guido Imbroisi

03/08/2011

Surrealismo, hachuras e incorreção política. Confira nosso bate-papo com uma das grandes revelações do quadrinho autoral brasileiro.

Por Douglas Utescher (douglas_utescher@yahoo.com.br)

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Uma das grandes surpresas que tivemos ano passado enquanto preparávamos o 1º Anuário de Fanzines, Zines e Publicações Alternativas foi o álbum/gibi Vulgar Manual, do Guido Imbroisi. Eu já conhecia e curtia o trabalho dele na revista Prego, mas encarar 36 páginas preenchidas exclusivamente com as insanidades deste jovem capixaba é uma experiência completamente diferente.

Dono de um dos traços mais marcantes da nova safra de quadrinistas underground nacionais, Guido agora se prepara para lançar um novo álbum, intitulado Quadro Negro Verde. É ele também o responsável pelo novo header deste blog e pela estampa da camiseta que lançaremos em breve.

Com a palavra, Mr. Imbroisi!

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Comecemos do início: quem é Guido Imbroisi?

Guido Imbroisi tem 22 anos, é estudante de Arquitetura e Urbanismo, apesar de que boa parte dos seus trabalhos se concentra na área das artes plásticas e visuais. É um grande fâ da música grindcore e de outros estilos que são possíveis de mesclar a esta linguagem musical. Tem preferência pelos dias de inverno aos dias de verão, não dispensando uma visita à beira do mar em qualquer circunstância. Tenta tocar bateira e desenhar todos os dias. Não tem o costume de ler, deixando espaço para as inúmeras idas ao cinema e para os filmes que gosta de rever.
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Seus primeiros quadrinhos foram publicados na revista Prego, cuja primeira edição foi lançada há 4 anos. Antes disso, o que você estava fazendo? Em que ponto surgiu a vontade de fazer quadrinhos?

Antes da Prego não estava fazendo muita coisa na verdade, estava apenas concluindo o 3° ano do segundo grau. Nessa época eu já desenhava, mas os trabalhos não tinham objetivo, não tinham pesquisa nem esmero e tinham um caráter rudimentar. Eu não encarava como um trabalho sério e não agregava valor aos desenhos que eu estava fazendo. A vontade de fazer ilustrações e quadrinhos veio logo após ter visto o documentário Crumb, dirigido Terry Zwigoff. Parece sacanagem, mas é sério: este vídeo exerce uma força mística sobre os novos ilustradores. Daí eu disse: ”fudeu, né?”, hehehe… Quando eu vi os trampos do velho, falei: “Puta que pariu! Vou ter que desenhar na vera também!”, mas eu não sabia nem o que era tinta nanquim, só conhecia grafite e tinta de caneta esferográfica. Durante esse período trocava muita idéia com Alex Vieira (Prego), que já estava fazendo faculdade de Artes Visuais e que sempre aparecia com umas revistas de quadrinhos, revistas de arte com grandes nomes, trabalhos excepcionais e outros nem tanto. Um dia ele apareceu com a idéia de fazer uma revista com conteúdo que misturasse quadrinhos com as linguagens das artes plásticas e visuais, eu me interessei pela idéia e a partir disso comecei a ter uma produção constante, resultando em algumas ilustrações e as primeiras histórias em quadrinhos, como O Homem Camarão (nunca terminei) e Macarronada Monstro, cheia de erros de hierarquia dos balões, ortografia e por aí vai (Prego #1). Estas foram algumas das portas que eu consegui abrir, que fizeram ligação para eu começar a produção de quadrinhos.
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Fale-nos do seu processo criativo. O que nasce primeiro: o desenho ou o roteiro?

O roteiro sempre vem antes do desenho na forma de idéia, permanecendo na mente em constante metamorfose. Antigamente eu não tinha o costume de passar pro papel, até porque eu sempre reescrevia, ou não gostava do que estava escrito, acabava me perdendo na história, nunca ficava na medida. Atualmente, por conta do novo projeto em que estou envolvido, chamado Quadro Negro Verde, estou tendo a chance de trabalhar seguindo algumas etapas que ajudam a moldar os quadrinhos, como roteiro, rascunhos, marcação a lápis, finalização com nanquim, digitalização e diagramação das páginas. A etapa do desenho e a concepção estética do quadrinho aparecem como uma segunda camada e me ajudam a consolidar a história. Na verdade, esta é a parte que mais gosto de trabalhar: desenhando, hachurando, finalizando, criando personagens, criando espaços, etc…
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A vanguarda surrealista parece exercer uma grande influência em seu trabalho, seja na concepção das imagens (como na HQ publicada na Prego #3, por exemplo), seja na utilização de uma “escrita automática”. Como surgiu a ideia de aliar quadrinhos e surrealismo? O que lhe atrai neste movimento?

Sempre fui fascinado pelos sonhos, pelas coisas que vemos e fazemos dentro deles, além dos reflexos que eles produzem na realidade. Neles sempre surgem situações, lugares e pessoas, algumas vezes enevoados como uma livre associação de imagens, e outras tão reais chegando aos níveis sensoriais. Aprecio muito a questão do nonsense ligado à ambiguidade e à distorção da percepção das imagens. É claro que o surrealismo não trata apenas disso, mas essa pequena parte me atrai muito. Vejo essa falta de regras também presente nos quadrinhos underground, que permitem explorar, falar e desenhar o que bem entendermos, sem restrições.
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Sua obsessão com hachuras e texturas chega a níveis extremos, como na HQ Malucônibus, publicada na Prego #2. Você demora muito para concluir uma HQ? Isso chega, de alguma forma, a atrapalhar sua produção? De onde vem a inspiração para esse tipo de desenho?

Demoro, sim. Essa HQ em particular eu demorei praticamente um semestre, por que além de não ficar  vinte e quatro horas em cima da prancheta por conta de outras atividades, nessa época eu realizava os trabalhos em tamanho A3. Fica mais demorado, a produção fica reduzida e às vezes perco algumas oportunidades e propostas de apresentar o meu material, mas pra mim tem um lado bem vantajoso, por que tenho mais espaço para criar detalhes e compor a cenas das histórias, deixando o trabalho final muito bem apresentado – e também por que sempre penso que algum dia ainda possa rolar uma exposição com os trampos originais, hehehehe…
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Fale-nos sobre sua banda, I Shit On Your Face. Algum lançamento em vista? Seus dons artísticos são também utilizados nas artes da banda?

Todos nos odeiam, principalmente as mulheres que um dia se atreveram a ler as nossas letras e por os olhos em nossas artes.
Cara, estamos chegando a quase 10 anos de banda, não fazemos muitos shows, e por ser o único grupo no estado a tocar esse estilo musical, nós não somos muito bem aceitos nos círculos do metal e principalmente hardcore capixaba, impossibilitando a participação em diversos eventos. Fazemos mais participações em outros estados do que em Vila Velha. Em relação aos lançamentos, nós acabamos de gravar o novo CD, intitulado Defecation Domination, contendo 14 sons inéditos e lançado pela Despise the Sun Records. Inclusive, grande parte dos desenhos utilizados na arte foi concebida por mim. Em breve vocês terão mais notícias dessa badalhoca musical.
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Ainda sobre música, o que você costuma ouvir quando está desenhando?

Hoje em dia eu escuto muito essa galera enquanto eu desenho: Milton Banana Trio, Cephalic Carnage, Estradasphere, Mr.Bungle, Messhuggah, Dead Infection, Rotten Sound, Napalm Death, Ratos de Porão, Terrorizer, Man Is The Bastard, Primus, George Thorogood and the Destroyers.
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No momento você está trabalhando em uma nova publicação, chamada Quadro Negro Verde. O que pode nos adiantar sobre ela?

O Quadro Negro Verde será bem diferente da Vulgar Manual, que é uma compilação de ilustrações antigas e fragmentos de quadrinhos, como o caso de Sanguis. Talvez até termine essa história um dia, curto muito aquela estética. Nesta nova publicação irei realizar três histórias completas contendo dez páginas cada uma, que serão trabalhadas com estéticas distintas. A primeira história se chama Terra de Sal, a segunda  Dois Dois e a terceira se chama Tunô. Esse título, Quadro Negro Verde, na verdade era o nome de um projeto paralelo de noisecore que eu tive muitos anos atrás e que evidentemente acabou não dando certo, mas como sempre gostei do nome resolvi guardá-lo, pois sabia que um dia iria usar em alguma coisa. Acabou que surgiu a oportunidade para colocar nessa publicação, que será lançada no final de 2011.
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A Quadro Negro Verde será lançada com verba de edital, assim como foi editado o excelente Vulgar Manual, no ano passado. Você acha que esse tipo de incentivo é o caminho para as publicações undergrounds? Não é de certa forma irônico que esse tipo de expressão artística dependa de dinheiro do governo?

Acredito que esse é um dos caminhos a seguir quando se tem uma proposta que exija um pouco mais de produção e esmero, fazendo com que o material fique apresentável e tenha alguma visibilidade, talvez até abrindo algumas portas. Mesmo dentro do underground, todo mundo que está produzindo alguma coisa de maneira independente, seja música, filmes, revistas, etc., quer chegar em algum lugar com aquilo que está produzindo. Quando essas criações tomam maiores proporções, exigindo maiores investimentos, as leis de incentivo à cultura e os editais subsidiados pelo governo se tornam excelentes portas para desenvolver nossas idéias e projetos como imaginamos, permitindo alcançar este “algum lugar”.
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Para terminar: Rolf Günter é inspirado em algum personagem da vida real?

Hehehehe! Cara, com certeza existe uns malucos nesse naipe, mas eu não me inspirei em ninguém da vida real não, hehehehe…

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